Os Intrusos

Confira a crônica natalina do professor Ratib Buchala

Autor: Ratib Buchala
Fotos: Reprodução / internet
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I

            Gabriel, o mordomo, era todo cuidadoso, todo preocupações em bem administrar o Solar dos Neves.

            Não era fácil. O prédio ocupava um quarteirão inteiro. Mas, para isso, Gabriel tinha sob suas ordens dezenas de criados laboriosos. Muitos deles menos pelo desejo de cumprir a obrigação e mais pelo medo de perderem o emprego.

            O mordomo Gabriel não se limitava a realizar o ofício que lhe competia. Tarefas que normalmente incomodam os serviçais insatisfeitos, nele encontravam oportunidade de revelar paciência e amor pelas coisas. E isso permitia que aumentasse o respeito que inspirava. A impressão era a de que o mordomo Gabriel, por força do aprendizado construído na persistência, tinha mais de mil anos. Esse exagero certamente provinha dos incapazes de entender a força do empenho comum, que se amplia no espírito dos abnegados. Impressionava pela alta estatura, elegância, cavalheirismo e força de caráter, além da generosidade que se esparramava das mãos e das palavras.

            Naquela noite de vinte e quatro de dezembro, o mordomo Gabriel se desdobrou nas ordens. A criadagem cumpria, sem disfarçar muitas vezes a impaciência, manifestada nas reclamações e resmungos que passavam de ouvido para ouvido. Tudo injustificado. Na verdade, o mordomo Gabriel procurava até mesmo aliviar-lhes a carga, fato esse nem sempre reconhecido pela maioria. É que, apesar da necessidade de receber e cumprir ordens, não se conformavam, lá no íntimo, com a situação que julgavam de subalternos, em que a vida os colocou.

 

II

            Os convidados formigavam.

            Os carros ocupavam todos os espaços reservados ao amplo estacionamento interno. Necessário também fossem as ruas invadidas nas proximidades e além. Uma orquestra enchia os ares de sons festivos e contagiantes.

 

III

 

            Eis que um dos serviçais vem trazer ao mordomo Gabriel a notícia de que um pedinte se achava no portão principal, confundindo-se com os convidados que, por sinal, começavam a reclamar. Queria pão e abrigo. O mordomo Gabriel, presente sempre às necessidades alheias, atende o pedido.

            Era mais que um pedinte. Tratava-se de um casal. Faces sofridas. Não se exigia muito adivinhar a vida trabalhosa, mas conformada, que levavam. Parecia o marido pouco mais velho que a esposa, esta de beleza angelical, na aparência de seus dezessete anos.

            - Viemos de longe. Faz tempo que temos fome e queríamos um lugar para passarmos esta noite. Mas, parece que hoje não é um dia bom para os pobres.

            E prosseguiu o marido relatando todo o drama das recusas. E algumas até malcriadas que acabaram de ouvir pelos incômodos de “pedintes fedorentos”, na entrada do prédio.

            O mordomo Gabriel, também forte nas decisões imediatas e seguras, não vacilou. Orientou-os a darem volta ao portão dos fundos do lado oposto, local sem movimento naquela hora.

            Para não perder contato com as obrigações, retornou à festa. Instruiu um dos serviçais mais eficientes e fiéis a substituí-lo, enquanto permanecesse fora.

            Com muito cuidado para ninguém pôr reparo, armou-se de robusta sacola de alimentos. Chamou de lado um dos criados para que daí para frente o acompanhasse, e foi ter de novo com o casal. Abriu-lhes o portão, sempre com os olhos rondando, vigilantes.

            Já há muito observara o adiantado estado de gravidez que dificultava os movimentos da mulher. Por isso a acomodou de maneira mais confortável possível numa velha cama desprezada entre as quinquilharias de uma garagem, onde abrigou o casal. Esfregou as mãos numa incontida satisfação pelo bem praticado.

            Tudo agora estaria muito bem, não pusesse a mulher a se queixar das primeiras dores do parto. Mas o mordomo Gabriel não se perturbou com aquilo. Confiava na sua incrível habilidade de resolver as coisas mais difíceis. E parteiro, mesmo estreante, aceitava um desafio a mais na longa escala de seus... mais de mil anos (como diziam).

 

IV

 

            O criado que daí para frente lhe fazia companhia, o Bento, era um dos faxineiros da casa.

            De uma ingenuidade total, dessas ingenuidades que, aos olhos dos menos avisados, confundia-se com estupidez.

            Desengonçado, bochechas vermelhas e enormes, olhos esbugalhados, ventrudo, incapaz de caminhar em linha reta, tropeçava nos próprios pés e chegava a dar topadas em objetos do caminho. Chapéu permanentemente enterrado, como se fizesse parte do couro cabeludo. Largava perdigoto por todas as sílabas e se atropelava nas palavras. Levava tempo comprido a entender os dizeres mais simples. Não tinha capacidade alguma de interpretar as ordens recebidas no sentido figurado. “Ir chamar alguém correndo”, por exemplo, significava realmente sair em desabalada carreira; “ir devagar", era tartaruga na cabeça.

            Assim, na hora do parto, quando o mordomo Gabriel lhe pediu que fosse buscar uns lençóis, recomendou  também que nada revelasse a ninguém do que se passava na garagem, sob pena de ser mandado ao inferno... Bento acreditou rigorosamente na ameaça... E foi e voltou rapidamente, pois foi-lhe ordenado que corresse...

 

V

 

            Meia noite, Natal!

            A orquestra substituiu as canções convencionais pelos acordes da “Noite Feliz”.

            O espetáculo pirotécnico, armado para esse momento, vestiu de claridades fantásticas a noite friorenta.

            Lá dentro, abraços, cantoria, brindes erguidos. O álcool erguia os espíritos às esferas estreladas. Impossível dar com os vagidos da criança que acabou de nascer.

           

VI

 

            Manhã do dia vinte e cinco.

            Tontos de cansaço, e preocupados com o almoço reservado aos convidados especiais, os anfitriões acordaram mais cedo que o normal. De qualquer maneira, tranquilos com a sempre presença certa do mordomo Gabriel, à testa da administração da casa.

            Mas... que desolação! Tudo ainda por iniciar! Tudo por limpar! Onde diabos se meteu Gabriel? “Gabriel! Gabriel!”.

            O mordomo Gabriel sumiu. Nem sombra do mordomo Gabriel. Os criados todos sabiam apenas que, por volta das vinte e três horas, Gabriel saiu por alguns instantes, fazendo recomendações. Foi sua tarefa, desde então, completada por outro criado zeloso. Mas o mordomo Gabriel não voltou mais.

            Somente Bento, ali, de pé, junto com os outros criados poderia relatar o acontecido. Mas não era louco de fazer isso. O medo de ser  mandado ao inferno, como prometeu o mordomo Gabriel no momento dos lençóis, iria se estender para ele até o fim da vida... E só de pensar, era tomado de tremuras incontroláveis...

            E o que viu ele na garagem?

            Ao dar meia-noite e os foguetes começaram a estourar, nasceu um menino.

            O mordomo, depois do parto, confiou-o aos braços da mãe.

            Mas, de repente, o corpo de Gabriel começou a sofrer transformações. Dele saía intenso brilho fosforescente, e clareou o ambiente de tal maneira, que parecia dia. E de suas costas brotava e crescia resplandecente par de asas brancas. E ele, mãos juntas e gesto de oração, dizia à mulher, que amamentava o filho, coisas estranhas que ele não entendia bem, como: “Cheia de Graça!”, ou: “Entre as Mulheres Bendita!” – coisas assim.

            E ele, Bento, inicialmente parado como um poste, criou coragem e saiu correndo apavorado.

            Só hoje, de manhãzinha, retornou à garagem , pé ante pé, ainda com muito medo, mas nada viu de anormal. Tudo no mesmo lugar, sem ninguém, como se nada tivesse acontecido.

            Contar? Mas, é, hein?

            Até aquele copo cheio de uma bebida fedida e amarelada (Whisky)  que emborcou pela primeira vez na vida, de um gole só, para diminuir o susto ao voltar à cozinha, lhe deu uma “queimação” do “diabo” na barriga... Só podia ser mesmo coisa do inferno!... Nem contar, nem pensar!...

Ratib Buchala é escritor, advogado, poeta e professor

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