A sociedade do “muito tudo”: como o excesso e a velocidade estão adoecendo nossa vida
Na era do excesso de informação, da hiperconectividade e da urgência constante, cresce o debate sobre os impactos do “muito, rápido e o tempo todo” na saúde mental, nos vínculos e no sentido da vida.
Nunca tivemos tanto e nunca estivemos tão exaustos. É tanta informação, acesso, tecnologia, opções, estímulos. E tudo acontece rápido demais. Vivemos a era do “muito tudo” e, sobretudo, do “muito tudo rápido”.
Basta observar o cotidiano. O café tem dezenas de sabores. As plataformas de streaming oferecem milhares de títulos. O celular não para de piscar. O WhatsApp acumula mensagens não respondidas enquanto outras continuam chegando. O feed das redes sociais nos apresenta uma nova vida, uma nova opinião e uma nova urgência a cada rolagem do dedo. Sem perceber, transformamos o “mais” em valor absoluto: mais produtividade, mais informação, mais conexões, mais desempenho.
Também percebo que a velocidade deixou de ser apenas uma ferramenta e virou uma espécie de vício coletivo. Somos incentivados a responder rápido, decidir rápido, produzir rápido. Ouvimos áudios em velocidade 2x, consumimos conteúdos resumidos e mal terminamos uma tarefa antes de já pensarmos na próxima. O tempo parece ter encolhido.
O mais inquietante é entender que não fomos biologicamente preparados para isso. Nosso cérebro foi moldado ao longo de milhares de anos para sobreviver buscando três coisas fundamentais: novidade, recompensa imediata e pertencimento social. O que antes ajudava nossos ancestrais a sobreviver hoje foi amplificado pela tecnologia. A novidade virou feed infinito. A recompensa imediata aparece em curtidas, compras instantâneas e pequenas doses de dopamina digital. O pertencimento passou a depender, muitas vezes, de visualizações e validação online.
Não nos enganemos: existe também uma lógica econômica por trás disso. Vivemos em uma sociedade movida pelo consumo, onde atenção virou ativo financeiro. Quanto mais tempo passamos conectados e quanto mais rápido reagimos, maior é o lucro. O excesso virou produto. A velocidade virou produto.
Os efeitos dessa dinâmica estão por toda parte. Vejo pessoas emocionalmente esgotadas, incapazes de silenciar a mente ou simplesmente ficar alguns minutos sem olhar o celular. Os relacionamentos parecem cada vez mais superficiais. Conversas profundas dão lugar a mensagens rápidas. A amizade vira curtida, o afeto vira notificação. Também noto um enfraquecimento do pensamento crítico: opinamos antes de refletir, compartilhamos antes de verificar.
Nesse cenário, tenho encontrado muito sentido nas ideias do pediatra e psicanalista britânico Donald Woods Winnicott. Ao formular o conceito da “mãe suficientemente boa”, ele mostrou algo profundamente contracultural: perfeição não fortalece, muitas vezes fragiliza. O saudável não é o perfeito, mas o suficientemente bom.
Tenho pensado em como isso se aplica à vida adulta. Talvez não precisemos de uma rotina impecável, de produtividade infinita ou de uma vida perfeitamente otimizada. Talvez precisemos de um trabalho suficientemente bom, de relações suficientemente boas e de dias suficientemente bons — vividos com presença, e não com exaustão.
Por isso, tenho tentado adotar algo simples, mas poderoso: o método dos três filtros. Antes de reagir, comprar, compartilhar ou decidir, faço três perguntas: eu realmente preciso ou apenas quero? Isso me aproxima ou me afasta da pessoa que desejo ser? Posso esperar?
Pode parecer pouco. São apenas alguns segundos. Mas acredito que é justamente nesse pequeno intervalo entre o impulso e a ação que mora algo cada vez mais raro nos dias de hoje: a liberdade.
Sobre o autor
José Milton Castan Junior é psicanalista especializado em saúde emocional de CEOs e C-Levels, com foco em tomada de decisão, desempenho executivo e liderança sob pressão. Reúne mais de 40 anos de experiência como executivo e 14 anos de atuação clínica em psicanálise, com mais de 300 líderes atendidos. Atua no suporte emocional e estratégico de altas lideranças, abordando temas como burnout, transição de carreira, fadiga cognitiva, isolamento e clareza mental. Já ocupou cargos de CEO e diretor industrial em grandes empresas e, atualmente, seu trabalho une experiência corporativa e escuta psicanalítica aplicada ao universo da alta gestão.