O livro “Guia da Maternidade Atípica – Desafios e estratégias para lidar com as complexidades da criação de filhos com deficiência”, da pesquisadora e consultora Patricia Salvatori, publicado pela Editora Jandaíra, propõe um olhar sensível e fundamentado sobre inclusão, diversidade e acessibilidade a partir da perspectiva das mães atípicas — mulheres que têm filhos com deficiência ou que vivem, elas mesmas, a deficiência.
Dividido em nove capítulos, o livro vai além do acolhimento e propõe ferramentas práticas e reflexões profundas sobre os desafios da maternidade atípica no Brasil, discutindo também o empreendedorismo como instrumento de autonomia e empoderamento. A autora aborda ainda a evolução histórica da deficiência — dos antigos estigmas e práticas eugenistas às sutilezas do capacitismo contemporâneo — e mostra como a linguagem e as atitudes cotidianas podem reforçar ou combater o preconceito.
Patricia defende que a maternidade atípica exige um novo olhar, com menos cobrança e mais compreensão. “É preciso menos perfeccionismo e mais humanidade — com humor, pequenos progressos e saúde mental. Mas a transformação não pode recair apenas sobre as famílias: depende também de uma sociedade que reconheça seu papel e de políticas públicas que garantam inclusão real”, afirma.
A trajetória de Patricia com o tema começou em 2005, quando recebeu o diagnóstico da filha Larissa, portadora da Síndrome de Prader-Willi, uma condição genética rara. A partir dessa vivência, ela mergulhou em uma jornada de aprendizado e ativismo, que culminou em pesquisas acadêmicas — incluindo seu doutorado em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, com a tese “Ativismo em um mundo (im)perfeito: relações públicas e cidadania para pessoas com deficiência” — e na criação da Rede Mães Atípicas, o primeiro ecossistema de desenvolvimento profissional voltado a esse público no país.
“Demorei anos para me apropriar da palavra deficiência. Hoje entendo que nomear é fundamental para assegurar direitos — ainda que o termo não dê conta de definir uma pessoa inteira”, afirma.
Dados levantados pela autora apontam que 70% das mães atípicas têm suas carreiras interrompidas após o diagnóstico de um filho. Muitas acabam migrando para o trabalho autônomo ou o empreendedorismo por necessidade, diante da falta de políticas que conciliem cuidado e carreira.
“Não é sobre caridade ou apenas o politicamente correto. O custo social de excluir pessoas do mercado de trabalho é pago por toda a sociedade”, reforça Patricia.
Estima-se que existam cerca de 9 milhões de mães atípicas no Brasil, um grupo expressivo que ainda carece de visibilidade e representação nas políticas públicas. O Guia da Maternidade Atípica busca, assim, dar voz e protagonismo a essas mulheres, inserindo-as no debate sobre inclusão, trabalho e cidadania.
Patricia Salvatori é doutora em Ciências da Comunicação (ECA/USP), professora universitária, pesquisadora, consultora em diversidade e inclusão e fundadora da Rede Mães Atípicas e da consultoria Mundo im.Perfeito. Atualmente, atua como diretora executiva da Abrapcorp (Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas) e leciona na Universidade São Judas Tadeu, no programa Ânima Plurais e no MBA Gestcorp ECA/USP.
Fundada em 2014 pela jornalista Lizandra Magon de Almeida, a Editora Jandaíra tem como missão disseminar conhecimento por meio de livros que abordam temas atuais e urgentes. Seu nome vem de uma espécie de abelha melífera nordestina sem ferrão, símbolo da doçura e da força da cultura brasileira.