Homenagem: Ode à Dirce Pucci

Veja o texto que o produtor cultural Rogério Alves escreveu em homenagem à professora Dirce Pucci, que faleceu na última quinta-feira (24), aos 95 anos

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O produtor cultural Rogério Alves escreveu um texto em homenagem à professora Dirce Pucci, que faleceu na última quinta-feira (24), aos 95 anos.

As palavras relatam, de maneira carinhosa, a experiência do autor em meio à convivência com Dirce.

Confira a homenagem a seguir.
 

"Escrevo estas linhas logo após saber da partida da mulher, mãe, professora e musicista Dirce Pucci. Em meus pensamentos, vem a imagem da Dirce em frente aos seus grupos com os braços erguidos e com sua voz ao microfone, levando os coralistas a cantar da forma e do jeito que ela interpretava as canções. Não conheci a Dirce jovem. Também, isso pouco importa por que ela sempre foi atemporal. Como se fosse um figurino que poderia ser usado em qualquer bom filme, representando qualquer época. Dona de traços de educação refinada, com seus óculos escuros belíssimos e roupas de fina estampa, mesmo que fosse uma camiseta e uma calça, ela podia até passar uma imagem de dama sofisticada e distante da realidade que a cercava. Mas, bastava uma breve conversa com ela para ver surgir uma outra personagem. Uma mulher antenada com seu tempo. Sendo bem sincero, muitas vezes, à frente dele. Não suportava pieguices, preconceitos e outras dessas mazelas que a humanidade insiste em cultivar. Logo, ela vinha com sua risada farta, pegando em nosso braço como um convite para também ser feliz naquele momento. Como regente ou animadora de coro, como ela mesmo se autointitulava, a vi por diversas vezes dando aulas de história sobre as canções que iria cantar com os grupos. Não conseguia ficar com seu conhecimento apenas para si. E, com isso, ela enriquecia e provocava a imaginação de seus coralistas de cabelos brancos. Um dos momentos mais marcantes para mim foi quando ela se despediu do seu amado esposo. Pensei como seria difícil encontrá-la depois deste momento. Fiquei ensaiando o que falar ou como iria confortá-la. Para minha surpresa, nosso primeiro reencontro foi em um evento festivo para a terceira idade. Quando eu a vi, fiquei de longe vendo a cena. Ela estava sentada em um banco contemplando um sol fraco, mas bem acolhedor. O seu olhar demonstrava tranquilidade e uma certeza que sua fé e crença sustentavam.  Ela deve ter percebido minha falta de jeito e resolveu a situação rapidamente, me estendeu os braços, me abraçou e disse baixinho: “como vai a vida garoto?  Seguindo sempre em frente?”. Não contive as lágrimas e a abracei carinhosamente. E, no fim das contas, foi ela quem me confortou. Querida professora, hoje a senhora terminou sua obra. Mas, ainda bem, que, diferentemente de outros grandes músicos, a senhora pode contemplá-la. Viu o quanto ficou bela. Pode aproveitar da sua maior criação que foi compartilhar sua vida com todos nós. Por aqui, seguiremos a vida, no entanto carregando na alma e no coração um acorde harmonioso, uma melodia a mais, encanto pela vida que podemos chamar de Dirce Pucci. BRAVO, Maestrina!

Rogério Alves

Maestro e Gestor"

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