Fim de uma era: Uninove retira móveis do campus de São Roque
Sem reunião com a Prefeitura, fechamento é consolidado. Proposta de transferência para a Capital gera impasse entre alunos.
Sem reunião com a Prefeitura, Uninove retira móveis do prédio alugado, fechamento de cursos é consolidado e deixa estudantes desamparados na região. Fotos: Carlos Mello
SÃO ROQUE — Uma cena melancólica marcou as últimas horas no prédio da antiga FAC (Faculdade de São Roque), atual Uni São Roque.
Carretas foram flagradas retirando carteiras, cadeiras e todo o mobiliário das instalações da instituição.
O esvaziamento do prédio consolida o anúncio feito pela Universidade Nove de Julho (Uninove), grupo responsável pela unidade, sobre o encerramento definitivo de todas as suas atividades acadêmicas presenciais no município.
A saída da instituição põe fim a uma trajetória de cerca de três décadas de história na educação local.
O fechamento representa um duro golpe que interrompe o sonho do diploma universitário para centenas de jovens e adultos de São Roque e de municípios vizinhos como Mairinque, Alumínio, Ibiúna e Araçariguama.
Oferta em São Paulo esbarra na realidade financeira dos alunos
Buscando mitigar o impacto, a Uninove ofereceu aos estudantes afetados a possibilidade de concluir seus respectivos cursos na cidade de São Paulo, mais especificamente no Campus Memorial, localizado na Barra Funda. Para viabilizar a transição, a instituição propôs uma bolsa com 100% de desconto (gratuidade integral) nas mensalidades até o fim da graduação.
Apesar da proposta parecer vantajosa no papel, na prática ela se tornou inviável para a grande maioria dos matriculados. Muitos estudantes relatam que não têm condições financeiras de arcar com os custos diários de transporte intermunicipal e alimentação na capital paulista.
Além da barreira econômica, há o fator da mobilidade e do tempo: o deslocamento diário de São Roque até a Barra Funda consome horas de viagem, colidindo diretamente com a rotina daqueles que trabalham na região em período integral e estudavam à noite.
Para esse grupo, a transferência para São Paulo se mostra uma alternativa fora da realidade.
Estudantes relatam indignação e desamparo
"É muito triste assistir a essa cena da retirada das carteiras e dos móveis da nossa cidade. São Roque perde muito com isso e nós, estudantes, também.
Eu mesma não poderei dar sequência aos meus estudos mais", lamentou uma universitária que preferiu não se identificar.
Assim como ela, dezenas de estudantes relatam a inviabilidade financeira e logística de se deslocarem diariamente para outros municípios populosos da região para dar continuidade à formação acadêmica. "Triste, uma história que poderia ter outro final. Mas, a ganância falou mais alto. Desejo que em um futuro próximo venha outra". comentou outra estudante.
Impasse com o poder público e o destino do prédio
Segundo a direção da faculdade, o motivo principal do fechamento envolveu impasses financeiros relacionados ao aluguel do prédio público ocupado pela instituição.
A universidade alegou que tentou tratativas com a prefeitura, mas as negociações não avançaram.
Por outro lado, logo após o anúncio surpresa, a Prefeitura de São Roque sinalizou que gostaria de uma reunião com a administração da Uninove para entender o cenário e buscar alternativas que evitassem o encerramento das aulas.
Contudo, esse encontro bilateral não ocorreu a tempo de frear a decisão, e a subsequente chegada dos caminhões de mudança colocou um ponto final em qualquer tentativa de conciliação.
A administração municipal informou que o Procon local está à disposição dos estudantes prejudicados para orientar e garantir o esclarecimento de seus direitos consumeristas diante do encerramento repentino das aulas presenciais.
O impacto para a região
A antiga FAC foi, por anos, uma das principais referências de ensino superior privado na microrregião de São Roque, atendendo também moradores de Mairinque, Alumínio, Ibiúna e Araçariguama. A perda desse polo universitário gera um vácuo educacional imediato e deve impactar o comércio local, que se beneficiava do fluxo de estudantes no período noturno.
Até o fechamento desta reportagem, a Uninove não havia se manifestado oficialmente sobre o destino dos alunos que ainda possuem disciplinas pendentes ou sobre os motivos estratégicos que levaram à desativação total do campus de São Roque.
O Jornal da Economia segue acompanhando o caso e mantém o espaço aberto para que a Uninove se manifeste oficialmente sobre o plano de suporte aos estudantes que optarem por não se transferir para a capital.