Os carpinteiros

Crônica sobre o Natal

Foto sobre "Os carpinteiros "

Os dois caminhavam há já um bom tempo.

Outono luminoso, sol causticante, cansaço. E mais cansados só de pensarem no que haveriam de caminhar. Detiveram – se às portas de um casebre, com intenção de breve repouso. Bateram palmas. Atendeu-os uma jovem, sorriso desenhando-se numa expressão de incontida tristeza. Estava grávida.

- Bas tarde ! Que vosmeceis qué ?

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- Boa tarde, minha senhora ! – responde o mais moço com respeito. E continuou: - Se a senhora tem aí uma água, um banquinho pra gente espantar o cansaço. . . nós não vamos demorar.

- Quem são vosmeceis ?

- Somos carpinteiros. Saímos de nossa distante cidade às quatro da madrugada pra chegarmos na cidade perto daqui.

- E vosmeceis veio a pé ?

- Não. Vínhamos montados, mas acabamos deixando os animais a pessoas que precisavam deles mais que nós. E tocamos a pé.

- Entra ! Entra !

Cômodo único e pouco espaçoso reunia quarto, sala, cozinha. “Desapertar” era só lá fora.

Em um leito miserável, colchão se desfazendo das palhas pelos lados, um homem doente, respiração difícil, voz sumida, ainda exprimia cordialidade:

- Bas tarde ! Entra prô favô. Senta ! Senta !. Escuitei que vosmeceis tão cansado. Bem se vê. Joana ! faiz aí um cafezinho fresquinho pros nossos amigos. Mais, premero a água.

- É meu marido. Home ativo, forte. Pegô duença e num tá dando pra trabaiá. Lá no posto de saúde dero os remédio prele sará. Já tá mió.

- Não se incomodem conosco – intervém o mais velho.

- Incômodo nenhum ! – diz a mulher. E vai prestativa ferver água no fogão a lenha.

- Ói, moços ! – diz o marido, querendo desabafar em palavras a vida que levavam:  - A gente veve de poco de arroiz, fejão, batata, umas verdura, açuca, sar, coisas que a vinzinhança sempre traiz.

- A vinzinhança tem dó da gente – diz a mulher- Até a gravideiz tá amparada. Tem um casar que veiz e otra me leva e traiz de carroça pro posto de saúde. O mermo que acode o meu marido, aí perto, na cidade onde vosmeceis vai. Tô já di seis meis.

Após ligeiro silêncio o mais moço olha em derredor e observa:

- A criança vai nascer e vocês não têm um bercinho ?

- Nóis num tem ainda, mais Jesuis num faia cos pobre.

- Não falha mesmo. Dá pra garantir – diz o mais moço.

Pois aquele apelo a Jesus despertou no mais velho a sugestão de um berço. Ideia plantada, saíram ao quintal e deram com algumas madeiras de móvel já desfeito, sabe-se lá como e quando, mas em bom estado. Por força da profissão, sempre apetrechados com ferramentas específicas e material, habilmente e com presteza compuseram o berço, sob olhares curiosos e agradecidos do casal.

- Pronto ! – diz o mais moço e continuou:

- O  colchãozinho, o travesseiro e as roupinhas vão chegar logo. Eu mesmo vou providenciar.

Não tinha a mulher como agradecer. Chegou a ajoelhar-se aos pés dos dois, sob protesto deles. Ergueram-na, mas não conseguiram impedir que ela lhes beijasse as mãos. O assunto derivou para o berço, que ela acariciava, correndo as mãos por todas as partes, iluminada de lágrimas.

Mais alguns minutos de conversa e sentiram que já era hora de partirem. Mais água e o café fumegante e gostoso, deitado numas canequinhas de louça, remataram a visita. Agradeceram muito e se foram.

Pouco mais adiante, após intervalo ditado por silêncio e meditação profunda, o mais velho tomou a palavra:

- Fizemos o que tínhamos que fazer, não é “MEU FILHO” ?

- Foi sim, “PAI JOSÉ”. Eu sei muito bem o que foi nascer numa noite de frio, sem ter o amparo de um berço...

E seguiram felizes para o destino que os aguardava.

Ratib Buchala

O advogado, escritor e poeta

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