O egoísmo que machuca é o mesmo que te faz humano

O egoísmo que machuca é o mesmo que te faz humano

- Foto: Divulgação

 

Todos nós gostaríamos de viver em um mundo perfeito... Mas será que todos nós somos tão imperfeitos? Será possível que conseguiremos chegar até a perfeição para fazermos as outras pessoas mais felizes? Ou somos simples seres predispostos a ideias fantasiosas, individualistas e egoístas?

O egoísmo não deve ser visto apenas como um defeito a ser corrigido de forma urgente. Esta característica pode ser vista de forma natural, porém com maior complexidade. Muitas pessoas utilizam da falta de generosidade e insensibilidade como uma defesa psicológica, inconscientemente provocando dor em outras pessoas às quais convivem.

Pessoas egoístas costumam isolar-se em si (criando muralhas de isolamento), pois nos referimos a uma forma construída de um “pensar habitual”. Um perfil de maior mesquinharia pode ser notado em casos onde pessoas passam a acumular bens materiais, o que acaba sendo uma forma de compensar sentimentos e distanciamento do mundo no intuito de se proteger do empobrecimento que ela mesma vivencia.

Atualmente existem filas de pacientes em consultórios que narram um “vazio existencial”, o que nada mais é do que a colheita dos frutos do egoísmo e da incapacidade de se relacionar, unidas a uma repressão dos sentimentos de amor e de fraternidade.

A psicoterapia ou análise psicanalítica são trabalhos que apresentam melhoras importantes na qualidade de nossa vida, pois nestes momentos passamos a conhecer a nós mesmos com todas nossas falhas e desejos. Devemos refletir e vivenciar momentos não como proprietários definitivos de posses materiais, mas apenas como usuários, realizando compartilhamentos de nossos sonhos e alegrias, assim como de nossos medos e frustrações.

A avareza e egoísmo são produtos de uma necessidade íntima do psiquismo humano, aparecendo como formas de defesas contra dores profundas (as quais muitas vezes são inconscientes), sem que estes pacientes se quer lembrem tais fatores. O egoísmo naturalmente busca enfeitar ou distrair um conflito existente no paciente com esta busca de bens perecíveis, mas que nunca poderá suprir a sensação de carência íntima.

Muitas pessoas se ajudam entre si, fazem favores umas às outras, trabalhos voluntários, doam órgãos e sangue, mães sacrificam-se pelos maridos e filhos, bombeiros arriscam vidas para salvar estranhos, freiras e padres passam a vida trabalhando para os mais necessitados e esta lista continua sem cessar. Mas na verdade importamo-nos apenas conosco mesmos.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, já citou que provavelmente o egoísmo psicológico possa ser correto, tendo em vista que a razão pela qual nos sentimos incomodados com sofrimento alheio vem de um temor de passarmos pela mesma situação. Na descrição de Hobbes, a piedade requer um sentido de identificação com um sofredor, pois então sentimos piedade de alguém quando nos imaginamos no lugar desta pessoa, pois também nos consideramos pessoas boas.

Tendo em vista que teoricamente nosso egoísmo é auto dirigido e que existe uma confusão entre satisfação dos próprios desejos e auto respeito, podemos dizer que o que o ser humano mais evita é a dor. Esta dor que incomoda e se dá como principal razão para que o egoísmo ocorra, mas ainda assim, é preciso considerar que a dor é uma das maiores formas de crescimentos pessoal, aprendizado e evolução em geral, pois movimenta o ser para que saia de um possível estado de conforto.

Em resumo, o autoconhecimento é a maior ferramenta em nossos dias para que conscientes de nossas fragilidades ainda possamos buscar a gentileza real dentro de nossos corações, “praticando”...

Gentileza não é a única forma de tratar o egoísmo, mas pode ser a maior conciliadora dos efeitos negativos resultantes de uma sociedade que perdeu a dimensão de seus ideais coletivos frente a toda consequência do individualismo e consumo acima de qualquer preço, afinal gentileza gera gentileza.

Estela Cristina Parra

Psicóloga Clínica e Organizacional

CRP: 06/119083

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