Das histórias de Branquinho e seu anjo da guarda

Por Sílvia Mello

Ele passeia livre pelas ruas do centro. Encontrá-lo, quando caminho, não é raro. Surpreender-me com sua presença, à noite, em busca não sei de que, é costumeiro. Doce é vê-lo dormir esparramado sob a sombra de alguma árvore do Largo dos Mendes, em tardes mornas de verão. A grama é seu tapete; viver livre, sua dádiva. Mas a liberdade pode ser, às vezes, a ausência de um lar, e trazer em seu bojo, a sede, a fome, o frio. Ou talvez perambular pelas calçadas, saboreando o vento, seja seu sagrado direito; adormecer debaixo do manto de uma noite enluarada, sua bênção, se os céus já destinaram um anjo para zelar por sua vida.

Para mim, ele é Branquinho. Seu pelo alvo se destaca no verde da grama e é quase uma camuflagem nas noites quentes, caminhando entre árvores e muros claros dos prédios do centro ou deitado sobre a areia do parquinho. Passar a noite sob a marquise de um edifício, ser alimentado por algum morador do andar de cima, receber água em pote vazio de sorvete, podem ser acontecimentos esporádicos, nem sempre na hora em que a fome bate, não no exato momento em que a sede seca a garganta, mas o suficiente para sobreviver.

Fotografar Branquinho e postar a imagem numa rede social, demonstrando a preocupação com as escoriações em seu corpo, para alertar as protetoras de animais que, é claro, já deveriam conhecê-lo, foi uma de minhas primeiras preocupações após observá-lo nas ruas, diversas vezes. Encontrar um lar para o cão magro e elegante, com aspecto de lobinho, já havia passado pela cabeça das protetoras, mas como dar um lar a um cão que, mesmo tendo dono, vive livre pelas ruas? Como privá-lo dessa vida que respira brisa e aspira a presença desse vínculo afetivo tênue, mas marcante, sua principal fonte de ligação com o ser humano?

Anjo e Sombra

Mas, se Branquinho mantém um amor incondicional por seu dono alcoólatra, mesmo esquecido nas ruas, sem alimento; fiel, ainda que a porta lhe seja batida e tenha que dormir do lado de fora, outro ser humano veste a capa de anjo para manter a vida pulsando através dessa alma animal. Pois, é certo, eles têm alma. Do contrário, não haveria anjo algum zelando por sua vida.

Encontrei o anjo, por acaso, numa manhã em que caminhava com minha poodle, Chiquinha. Ele era um anjo comum, vestia bermuda e camiseta cavada, tinha sandálias nos pés. Não percebi nenhuma asa, mas nas mãos havia uma sacola de mercado cheinha de carne moída, ração para cães e muita salsicha. O anjo falou normalmente comigo e foi aí que conheci parte da história de Branquinho que, na verdade, se chama Sombra, por andar sempre em busca de seu dono, sempre na esperança de que ele o conduza aonde quer que vá, mas que esteja ao seu lado.

O anjo tem o cuidado de dar carne bem amassada na boca de Branquinho (ou Sombra) que, apesar de não parecer velho, não apresenta dente algum em sua boca. E comprovo isso, quando o anjo afasta as gengivas do cão, para que eu veja. Apesar disso, Branquinho é valente, rosna e late para defender seu território, ainda que seu opositor seja um ameaçador mestiço de rottweiler com a boca cheia de agressivos dentes. Na maior parte do tempo, é tranquilo, e atento ao movimento ao redor, como qualquer morador de rua.

Aventuras de Protetor

Mas, o anjo da guarda de Branquinho, sempre preocupado em fazer com que ele receba alimentos que pedem pouca mastigação, cuida de outros animais que sobrevivem pelas ruas. Depois de colocar carne com arroz para branquinho sobre um saco plástico, entre arbustos, a fim de que ele coma sossegado e camuflado, o anjo, que prefere não se identificar, sai à procura de outros cães, para lhes dar alimento. Faz isso todas as manhãs.

E nessa vida de protetor de animais, independente e quase anônimo, ele coleciona histórias, cenas que narra com o bom humor de quem todos os dias se depara com a indiferença e a maldade humanas, estampadas nos olhos dos animais. O anjo lembra algumas de suas aventuras e rimos da cena em que ele desce do carro para alimentar um animal, sem seus óculos, e encontra um saco de lixo no lugar do cão. Ou de quando diz que vai até a casa do dono de Sombra (ou Branquinho) à procura do cão, para alimentá-lo, quando não o encontra no Largo e, como a casa fica pertinho do cemitério, não é coisa de anjo o que ele tem que fazer para chamar o cão. Sem pestanejar e num local que não é longe dos túmulos, ao anjo grita: - Sombraaaaaaaa! Sombraaaaaaaa!– Num tom que assustaria qualquer fantasma.

Depois de um tempo, o anjo volta para verificar se Branquinho, camuflado, comeu toda a carne com arroz e jogar no lixo o saco plástico, que mostra que o cão papou tudo, e no qual algumas pombas procuram minúsculos restinhos de comida. No Largo dos Mendes, conta o anjo, alimentar cães é também dividir o espaço com bêbados, ex-presidiários, ladrões. Ficar em paz com eles, é dar-lhes um pouco da salsicha que seria destinada aos cães.

E certo dia, o anjo se esquece da vasilha para colocar água para os cães. Vai à procura de algum pote de sorvete dentro da lixeira, quando uma senhora o surpreende e um diálogo se segue:

- Filho, não faça isso! – diz à mulher, com ar de incredulidade.

- Não, minha senhora... – tenta explicar o anjo.

- Não precisa falar nada, meu filho, eu sei, a vida é dura... – diz a mulher, e em seguida pede para que um menino que está ao lado dela vá comprar um lanche para o anjo.

- Não dona, não é isso... – argumenta o anjo.

- Eu sei, não precisa explicar, é constrangedor...

Logo o menino chega com uma Coca e um cachorro quente.

A mulher entrega ao anjo. o lanche, e ainda faz o apelo:

- Não coma do lixo, faz mal!!!

Enquanto rimos do episódio, Branquinho está longe e o avistamos com o focinho levantado, como um lobo uivando para a Lua. Mas o anjo me explica que o cão fareja o dono. Mesmo que esteja comendo sua única refeição decente do dia, se o dono passar, ele abandona o alimento e corre atrás do alcoólatra, que caminha desarvorado. É o anjo que dá uma gorjeta para o dono de Branquinho ficar ali, sentado ao seu lado, até que o cão termine de comer.

Mas, o dono que Branquinho escolheu sofre de câncer e talvez daqui a pouco tempo não esteja mais ao alcance, ainda que descontínuo, de seu cão. Se ele se for, Branquinho terá que decidir se deve desistir de ser a sombra de alguém que nem sequer soube cuidar de si mesmo. Seu amor por ele, é claro, permanecerá, enquanto o cão viver. E talvez, além disso...

Quando ele se for e Branquinho farejar o vento, em vão, ainda haverá o anjo.

E assim, se olharmos entre as árvores, nas praças, nas ruas e percebermos a presença de cães que vivem quase invisíveis aos olhos humanos, descobriremos um mundo mágico, onde o amor nunca morre e os anjos transitam, distribuindo sua proteção. Ainda que estejamos incrédulos sobre o destino deste mundo, se fecharmos os olhos, ainda haverá o rastro de luz que esses seres espalham para iluminar nossos caminhos.

*Sílvia Mello é jornalista e escritora

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Bruno Tacoronte

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