Churrasco Humano

Este texto é em memória ao senhor PrabirBasu

Desde 1999 quando vim morar na Índia, aprendi e respeitei o fato de que mulheres não vão ao crematório, nem mesmo para cremar pessoas próximas como marido e filhos.

70% da população indiana é da religião hindu e no hinduismo os mortos são cremados e não enterrados. Este fato é muito importante pois com uma população de mais de 1 bilhão de habitantes, não haveria cemitérios suficientes para enterrar tantas pessoas.

Por 15 anos respeitei a tradição hindu e não me atrevi a entrar em nenhum crematório, no entanto, o falecimento de um senhor muito querido, fez-me quebrar a regra e assim sendo, fui prestar minha última homenagem a este senhor que era uma pessoa muito alegre.

Por ser em Nova Delhi, a capital da Índia e pleno século 21 eu esperava mais, muito mais, de um dos melhores crematórios indianos que fica na zonal sul, área nobre da cidade.

Para minha total surpresa, 98% dos indianos, mesmo sendo habitantes da segunda maior cidade da Índia, ainda preferem serem cremados do modo tradicional, ou seja, a céu aberto!

Quatro corpos queimavam a céu aberto quando o corpo do senhor Basu chegou. Coroas de flores foram colocadas sobre ele e após mais um ritual, seu corpo seguiu para o único forno crematório elétrico existente dentro da grande área de cremação. Neste interim mais dois corpos haviam começadoa cremar.

É muito difícil transformar em palavras as diversas sensações olfativas pelas quais passei.

Assim que os corpos começam a serem cremados o cheiro é exatamente de churrasco, de carne sendo grelhada, mas neste caso, carne humana. Após algum tempo o cheiro passa a ser o de carne bem passada e logo em seguida o cheiro é de carne queimando.

Nesta altura a fumaça é tanta que os olhos começam a arder. O cheiro e a fumaça de seis corpos humanos sendo queimados a céu aberto simultaneamente é algo muito intenso. Fiquei com uma sensação de náusea e uma vontade de sair correndo de lá, mas tínhamos que esperar pela hora exata do corpo do senhor Basu entrar no crematório elétrico. 

Como existe apenas um forno elétrico, a cremação tem que ser marcada com antecedência e os horários devem ser cumpridos com rigor, caso contrário você acaba levando embora as cinzas do defunto errado.

Ainda bem que os filhos do senhor Basu escolheram a cremação moderna em forno elétrico,pois sinceramente eu não teria estômago para aguentar vê-lo sendo consumido pelas chamas da grande fogueira feita com troncos de árvores.

Esta foi e segunda experiência mais intensa que tive na Índia. Uma mistura forte de emoções de tristeza, náusea e repugnância.

Minha mente, como mecanismo de defesa, começou a pensar no por quê da maioria dos indianos ainda preferirem o meio arcaico de cremação a céu aberto, onde sempre sobra pedaços do corpo que não são cremados totalmente?

E o horror de ver o corpo de seu ente querido sendo devorado pelo fogo?

E os diversos cheiros que exalam do corpo durante este processo?

Pior ainda é o fato do filho mais velho ter que atear o fogo no corpo (no rosto) do pai ou da mãe morto/a.

Para que o corpo pegue fogo é jogado óleo de cozinha (ghee) sobre o corpo. Os gordos queimam melhor que os magros. Gente magra requer uma maior quantidade de óleo para poder queimar direito e também uma maior quantidade de tempo.

E por último mas não menos importante, eu pensava em quantos desmatamentos, florestas, árvores, são cortadas para que seu troco seja usado na cremação.É uma quantidade muito grande de troncos usados para queimar cada corpo; e centenas de corpos são cremados todos os dias na Índia.

E quanto a poluição, a imensa quantidade de fumaça que a cremação arcaica causa ao meio ambiente?

Fiquei pensando no holocausto. Nos milhares de judeus cremados vivos. Que coisa mais cruel e grotesca de se fazer com outro ser humano!

Meu desespero aumentou e já não aguentava mais quando finalmente chegou a hora do corpo do senhor Basu entrar no forno elétrico. Tão melhor, tão mais civilizado, tão mais rápido; leva somente cerca de 45 minutos para o corpo ser cremado.

Fiz minha última oração em silêncio; agradeci a Deus pela oportunidade de ter conhecido um senhor muito especial, e me despedi respeitosamente do senhor Basu; que deixou um grande vazio e muitas saudades nos corações de todos que tiveram o privilégio de conhece-lo.

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Sandra Maria Duarte

Sandra Maria Duarte é Professora, geógrafa e psicanalista e vive na Índia O Melhor Blog sobre a Índia é Sucesso entre Jornalistas e Professores. Tema de tese de Doutorado, Mestrado e diversos TGs. Fonte da novela Caminho das Índias. https://indiagestao.blogspot.com

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