Reflexões sobre Arte, Política Cultural e Discriminação

Por Sílvia Mello

“Os grandes temas subsistem e resistem ao tempo, justamente pela sua grandiosidade e intemporalidade.” (Darcy Penteado, sobre sua “Via Crucis”)

Homossexual, autodidata, talentoso, circulou pela high society paulista, principalmente como retratista, artista plural ou singular (como queiram; para mim, foi ambos!), primou pela criatividade artística, presente em bienais internacionais, ganhador do prêmio Jabuti na categoria ilustração, figurinista e cenógrafo de teatro, escritor, manifestou-se contra a Ditadura no Brasil, participou do movimento pelas Diretas para a presidência da República. Quem quiser minimamente abordar de forma séria o nome do artista plástico Darcy Penteado, nascido em São Roque em 1926, terá de se remeter a essas características ou tratar de alguns desses temas, intimamente ligados a sua vida e obra.

Num momento delicado da vida política nacional, no ano da Copa do Mundo no Brasil e de eleição presidencial, quando os movimentos sociais se fazem presentes nas ruas, às vezes apenas para ocupar um espaço democrático e manifestar sua insatisfação, a poucas horas de uma agendada reedição da Marcha com a Família pela Liberdade, reação principalmente à improbidade no poder público, com pedido da volta dos militares ao poder no Brasil, como se Ditadura e corrupção fossem forças contrárias, por que falar em arte, em política cultural, ou sobre o esquecido e desvalorizado artista são-roquense Darcy Penteado?

De Museus e Política Cultural

Desde que o primeiro museu, da forma como o vemos hoje, surgiu no mundo – com origem na coleção variada de Elias Ashmole, antes mesmo da criação do Museu Britânico, o Ashmolean, Museum como foi chamado, que partiu de uma coleção de História Natural, evoluindo para o foco maior como Museu de Arte e Arqueologia – a escolha do destino de uma coleção e sua forma de musealização sempre tiveram um caráter político, no sentido público da palavra, que se reflete na forma de apropriação e difusão da Cultura.

A criação do Museu do Louvre, após a Revolução Francesa não foi menos que a reunião de coleções sob uma política cultural, que reflete a história da França e como a História da Arte e a Ciência foram abordadas naquele momento.

Em plena época do Movimento Modernista no Brasil, nascia Darcy Penteado, muito cedo apaixonado pela arte, que manifestou de forma multifacetada, no modo de expressão, técnica e temática por ele praticadas. Sem dúvida, sofreu influência dos grandes mestres cujas obras imponentes permanecem até hoje em museus europeus, algumas delas podendo ser encontradas nos mais importantes espaços museológicos brasileiros.

Herança

No final dos anos 1980, o Grande Louvre, surge em Paris, um museu reestruturado durante o governo Mitterrand, em comemoração aos 200 anos da Revolução Francesa. Novamente, uma política cultural define a reorganização espacial e o destaque para algumas obras como a Mona Lisa, em sua Grande Galeria.

No mesmo final dos anos 1980, mais precisamente em 1987 falece o artista plástico Darcy Penteado, vítima da AIDs, deixando como herança para sua cidade, 56 obras por ele produzidas, além de seu acervo pessoal, fotos, documentos e clipping de toda a carreira artística. A condição era que fosse criada uma fundação cultural para preservar e difundir a obra.

Mas, 27 anos depois, apenas algumas tentativas infrutíferas e equivocadas tecnicamente, foram feitas para abrir ao público um espaço museológico com a finalidade de difusão da obra de Darcy Penteado. A Fundação Enrico Dell’Acqua, criada em 1990, com os objetivos de preservação e difusão do acervo, foi praticamente extinta nos últimos anos.

Preservação

Se nos primeiros anos de existência do Museu do Louvre, ainda no século 19, surgiram também, as primeiras preocupações com a formação de profissionais para museu, que se configuraram em forma de cursos e desenvolvimento de espaços de conservação de seu acervo, em pleno século 21, a obra de Darcy Penteado sofreu deterioração e perda em sua autenticidade por falta de cuidados técnicos, em sua cidade natal, ainda que os grandes museus públicos brasileiros mantenham reservas técnicas e tenham um plano de conservação das coleções.

Ao fazer seu testamento, Darcy Penteado determinou que a fundação dedicada a manter a sua obra o fizesse por pelo menos 30 anos. Nem mesmo o artista poderia imaginar que a técnica de perenidade por ele desenvolvida e aplicada na produção de suas obras, pudesse mantê-las por mais de quarenta anos intactas, não fosse o descaso do poder publico de sua cidade natal, colocando-as em risco.

Preconceito

Não é difícil de imaginar como se posicionaria Darcy Penteado ao ver o Brasil de hoje. Certamente combateria a nova versão da Marcha com a Família pela Liberdade. E seria contra amarrar adolescentes transgressores marginalizados e negros em postes; da mesma forma, não se omitiria diante das perseguições e assassinatos de homossexuais, que se concretizam em cenas claramente neonazistas, nos espaços urbanos.

O que diria ele do descaso com a sua obra, deixada à cidade natal como herança cultural? Não é difícil supor. Mas uma reflexão nos levaria certamente a perguntar por que? Não se trata apenas de atraso e falta de uma política cultural com foco na arte. Arrisco-me a escrever que se trata, sim, de uma censura muda a uma obra produzida para além do seu tempo. Não foi por acaso que Darcy Penteado criou sua Proposta para uma Nova Via Crucis, no auge da ditadura militar, com dez trabalhos de 1m x 1m, em técnica mista, e forte conteúdo de crítica social à mesma sociedade que o elevou como retratista nos anos 1970.

Idêntica censura grita a incompreensão e a homofobia diante da genialidade de um artista que tem suas obras vendidas em feiras, na capital paulista, e mercados virtuais, a preços muito baixos. Apenas um autorretrato de Darcy Penteado figura no acervo do Museu de Arte de São Paulo e uns três ou quatro desenhos, no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Em contato com um curador da Pinacoteca, arrisquei-me a perguntar por que essa desatenção, e ele me respondeu: “Mercado”. Fico com a tese do preconceito. E penso que se o poder público em São Roque tivesse real interesse na obra, esse seria o momento de aumentar o acervo e inaugurar um museu de arte digno do artista. Pois, arrisco-me, ainda, a profetizar: um dia a arte de Darcy Penteado, se as obras forem preservadas, será reconhecida em toda sua dimensão criativa e artística. Os grandes artistas subsistem e resistem ao tempo.

 

*Sílvia Mello é jornalista, escritora e autora dos livros Brincando com Arte e Contando a Arte de Darcy Penteado (Noovha America, São Paulo:2004)

Autorretrato, obra de Darcy Penteado que faz parte do acervo do MASP - Museu de Arte de São Paulo

 Ilustração de Darcy Penteado para o livro Alice no País das Maravilhas, Editora Melhoramentos

 Ilustração de Darcy Penteado para o livro Infância, de Graciliano Ramos, 1966

 Ilustração de Darcy Penteado para o livro Flauta Silente, 1981

 Primeiro quadro da obra Proposta para uma Nova Via Crucis de Darcy Penteado, 1968, composta por dez quadros, em técnica mista, 1m x 1m

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Bruno Tacoronte

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