Engenheira de São Roque cria projeto de inclusão cultural no Sul

Ela viveu desde criança em São Roque, mas para exercer a cidadania não existem fronteiras geográficas

Legenda da foto: Tânia Regina de Souza, ao centro, professora da Unipampa, em curso sobre cosméticos com alunos do projeto de inclusão cultural

 

Ela viveu desde criança em São Roque, mas para exercer a cidadania não existem fronteiras geográficas. Formou-se em engenharia química e cursou mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo. Aos quarenta anos, Tânia Regina de Souza já não encontrava em sua cidade um emprego compatível com sua formação. Prestou concurso para um cargo de professora numa universidade federal e em outubro de 2012, partiu com o marido para Bagé-RS.

Dar aulas na Universidade Federal do Pampa seria o seu trabalho, gratificante, pois ser professora sempre foi um de seus talentos; adquirir uma linda casa na cidade e o carro dos seus sonhos, foi consequência. Mas Tânia sempre costumou olhar além do próprio umbigo e observou que entre os funcionários que prestavam serviço terceirizado para a universidade, na portaria e limpeza dos prédios, havia aqueles que sequer sabiam ler e os que poderiam tentar o Enem, por exemplo, para eliminar o Ensino Médio, e nem tinham completado o Ensino Fundamental.

Analfabetismo Zero com voluntariado

Para facilitar o acesso à cultura e a promoção da sua educação, surgiram os projetos Analfabetismo Zero e Unipampa Presente, uma parceria entre Tânia e a professora Maria Eloa Gehlen. “Percebemos que os funcionários da limpeza e portaria achavam a faculdade um sonho inatingível, pois tinham parado de estudar há muito tempo, mas tinham uma imensa vontade de fazer algum curso de graduação e poder melhorar de vida”, relembra ela.

A resposta para a necessidade de inclusão cultural desses funcionários foi um trabalho voluntário, com a participação das professores e dez alunos da Unipampa; as aulas aconteceram durante uma hora por dia, no horário de almoço dos funcionários. As idealizadoras dos projetos dividiam a tarefa com os alunos de engenharia, ministrando aulas de matemática, informática, português (redação e literatura), história e geografia.

“Uma aluna de licenciatura de matemática participava, para ensinar as quatro operações básicas, outra aluna de licenciatura de letras, para alfabetizar duas funcionárias que eram semianalfabetas, ‘só conseguiam ler letrinhas separadas, juntas não’, segundo uma delas; e outro monitor para ensinar informática básica, principalmente internet e redes sociais”, conta Tânia.

Passar no Enem, fazer compras no mercado, ter um perfil no Facebook...

No inicio, as pessoas que seriam beneficiadas com o projeto receberam a ideia com desconficança, pois sequer esperavam que alguém pensasse em fazer algo por elas. Mas, em pouco tempo, os resultados vieram.

Tania afirma que esse curso de curta duração ofereceu apenas alguns conhecimentos básicos, nas áreas em que as aulas foram ministradas aos oito funcionários beneficiados pelo projeto; porém, os resultados superaram as expectativas e foram gratificantes para o grupo.

As funcionárias analfabetas sabem ler e escrever o básico; um dos alunos, eliminou todas as disciplinas do ENEM, restando apenas matemática, e outra aluna também eliminou duas das quatro disciplinas. Hoje todos os funcionários possuem endereço de e-mail e perfil no Facebook. Saíram do analfabetismo digital.

Os alunos dos dois projetos foram convidados a participar de uma visita técnica à Vinícola Almadén, na cidade de Santana do Livramento. Foi programada uma viagem para que todos os monitores e alunos pudessem conhecer o “Natal-Luz” de Gramado, sem nenhum custo. Algumas senhoras que nunca tinham saído de Bagé se sentiram realizadas com a viagem. Ao final do curso todos receberam certificados e até compraram roupas novas para o coquetel de encerramento, que contou com a participação do diretor do campus da Unipampa.

Emoções

Tânia que há pouco descobriu, com alegria, que está grávida do primeiro filho, emociona-se ao narrar a mudança ocorrida com as pessoas beneficiadas pelos projetos.

“Chorei com o agradecimento de uma aluna que me disse: ‘Sabe professora, meu pai me chamou de burra a vida inteira, meu marido me chama de burra e com essas aulas descobri que eles estão enganados, pois aprendi fazer continhas. Obrigada por tudo..." “Outra aluna me disse: ‘Como é bom ir no mercado e não precisar mais comprar massa de bolo que vem com desenho indicando quanto ovos e leite devo colocar. Agora posso comprar da marca que eu mais gosto, pois sei ler as instruções.’  E falou também: ‘ Como é bom ir no mercado e saber o que eu posso comprar com R$ 100,00; não preciso mais devolver produtos no caixa’.”

“Uma das alunas criou seu perfil no Facebook”, conclui Tânia – “e descobriu que o marido tinha outra família, com fotos, mostrando que era casado e tudo mais. Realmente, ele não acreditava que a mulher iria sair do analfabetismo digital. Infelizmente (ou não) o casamento terminou”.

 

*Sílvia Mello é jornalista e escritora.

Confraternização dos participantes dos projetos Analfabetismo Zero e Unipampa Presente, da Universidade Federal do Pampa

 

Alunos participam de aulas de informática no projeto Analfabetismo Zero da Unipampa

 

 

 

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Bruno Tacoronte

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