Um carnavalesco chamado Darcy

Por Sílvia Mello

Uma foto datada de 1927 mostra Darcy Penteado pouco antes de completar um ano de idade vestindo uma fantasia de Pierrô. Cinqüenta anos depois, essa foto inspirou a obra do artista intitulada Carnaval de 1927, uma água forte colorida, que mostra o pequeno Pierrô Darcy sobre uma base quadriculada em branco e preto, marca de muitos de seus trabalhos da década de 1970.

Desde criança Darcy Penteado teve atração especial por fantasias, alegorias, máscaras, dança e tudo o que se relacionava ao Carnaval. Fã da música popular brasileira e excelente dançarino, ele saía-se muito bem nos passos do twist, swing, conga e, é claro, samba.

Em sua adolescência, era comum sair às ruas de São Roque nos dias de Carnaval, desfilando nos blocos que partiam de sua casa. Dona Chiquita, a mãe, grande incentivadora, era quem ajudava na confecção das fantasias para os blocos dos quais o filho participava..

Presença assídua nos bailes do São Paulo Clube, quando vinha à cidade, nas férias, Darcy era figura sempre presente nos cordões carnavalescos desse clube, que ajudava a organizar, na década de 1940. As fantasias que usou foram muitas, de jornaleiros a russos, dependendo do tema escolhido.

FIGURINOS

O Carnaval era um grande estímulo à criatividade do artista. Assim, Darcy desenhava modelos de fantasias para quem os encomendasse. Participou como figurinista em concursos de fantasia de clubes da cidade de São Paulo, desenhando para a alta sociedade paulistana, nos anos 1960. Criou, entre outros, o figurino da Ala dos Paulistas “Crianças 1900” para o desfile da Imperatriz Leopoldinense no Carnaval carioca de 1981.

PIERRÔ

Apesar de sua paixão pelo Carnaval, somente após completar 50 anos, Darcy resolveu acrescentar às muitas experiências que acumulou em sua vida, a de desfilar numa escola de samba. Em 1977, formou com um grupo de amigos a Ala dos Pierrôs Paulistas da Unidos de Vila Isabel, para a qual, é lógico, criou a fantasia.

A ala de 12 Pierrôs exibia modelo em branco e prata, estilizado e iluminado, pois Darcy, em sua engenhosidade, entremeou o tule usado na fantasia com um circuito de pequenas luzes que brilhavam na noite carnavalesca do Rio.

Escolheu o tema inspirado naquela sua foto, tirada cinqüenta anos antes.

Sobre desfilar numa grande escola de samba, Darcy Penteado comentou:

Não pensei muito para não desistir da idéia e, enquanto animado, organizei-me com um grupo de amigos também carnavalescos. O fato parecerá desfrutável a muitos, mas para mim é válido tudo o que se faça com integridade e amor. Vida e arte são a meu ver coisas do mesmo valor, portanto não deixo uma de lado em benefício da outra, nem me afasto de uma enquanto estou praticando a outra. Dessa identificação (boa ou má) comigo mesmo, do que faço pintando, escrevendo ou vivendo, resulta minha maneira de sentir que estou vivo, jovem de espírito e atuante, não importa se às vezes errado ou falível.”

Silvia Mello é jornalista, escritora e autora dos livros “Brincando com Arte – Darcy Pentenado” e “Contando a Arte de Darcy Penteado”, editora Noovha America, SP, 2004.

 

Foto

Bruno Tacoronte

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