Coluna VITRINE: A INTENÇÃO DA SEMENTE

Coluna VITRINE: A INTENÇÃO DA SEMENTE

Ainda pequeno um dia fui à igreja e lá vi uma pessoa tocando um instrumento grande, cheio de teclas brancas e pretas com um som maravilhoso. Só mais tarde descobri que aquilo era um piano. Paixão à primeira vista. Não toquei. Apenas observei, por que como disse a Cora Coralina “se a gente cresce com os duros golpes da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma”.

Resolvi procurar aquela figura que ao piano parecia uma alquimista dos teclados. O medo veio, mas não paralisou. “Oi moça. Eu quero aprender tocar piano”. Aqui abro um parêntese. A moça alquimista da música tinha tudo para ser uma grande concertista.

Um dia conversando com outra professora aprendi uma grande verdade: “alguns músicos fazem a opção de ser instrumentistas e outros professores. Isso não desmerece o talento de ninguém”. Claro, é óbvio que não. Embora até hoje me impressione pela sua execução impecavelmente ágil do Estudo Op. 10, nº. 12 - "La révolutionnaire" (O revolucionário) de Chopin, ela optou por ser professora, mestre e condutora. E ela foi minha primeira professora de piano.

Hoje, a professora Raquel Rocha Barros tem muitos anos de carreira e é empresária na área do ensino musical. Mas quando a conheci era apenas uma menina com um pouco de experiência de vida a mais do que eu. Usava só roupas cor de rosa, sempre o mesmo perfume e andava de Mobilete (a geração Y que lute para descobrir o que é Mobilete).

Quando ela aceitou ser minha professora e me colocou frente a frente ao piano, desta vez pude tocar suas teclas. Fico imaginando que na cabeça dela neste momento está passando as imagens dos alunos que foram marcados pela música através dela. Infelizmente, no Brasil os educadores de artes não são valorizados. A arte ainda é vista como hobby ou artigo de perfumaria.

Não é incomum ter que responder a perguntas como: você não trabalha? Só dá aulas de música? Se a grande massa pudesse ver a importância que a arte tem na vida das pessoas mudariam de opinião. Nem todos os alunos se tornarão músicos, atores ou dançarinos. Mas com certeza serão pessoas mais humanizadas, com um poder aumentado de criticidade e discernimento. Neste caso, a quantidade não importa. O que importa é a “intenção da semente”.

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Rogério Alves

Rogério Alves estudou regência na ULM (Universidade Livre de Música), é formado em prática de regência pelo Conservatório J. S. Bach e Gestão Pública pela UNIP. Atua na área da cultura, educação e da assistência social há mais de 20 anos. Foi criador de projetos como o Auto de Páscoa, Núcleo de Artes do CEC Brasital. Foi premiado pela criação do Programa de Boca Aberta - Musicalização Estudantil - escolhido para...

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