EU SÓ QUERO SER FELIZ!

EU SÓ QUERO SER FELIZ!

É muito comum as pessoas em situação de rua irem para a vitrine no inverno. Durante o verão a situação muda. Passam de “coitados” para “vagabundos”. Conheci a *Maria Estela numa noite fria de Agosto. Ela vivia nas ruas de São Roque. Uma mulher amarga, arrogante e muito teimosa. Mas isso não passa de uma defesa que ela criou.Tem muitas outras camadas de bom humor, gratidão e fé ? que compõem esta mulher. Imagino que ela esteja chegando perto dos 60 anos. Embora ela tenha uma aparência muito judiada pela vivência nas ruas, consegue exibir certa estética e até a moda que ela mesma cria.

Meu primeiro contato com ela foi ouvindo um dos seus inúmeros questionamentos.“Eu tenho família, mas nunca fui feliz porque ninguém entendia meu jeito. Falavam que eu sou louca, vagabunda e histérica. Caramba, será que é tão difícil me deixar ser feliz? Eu choro, mas não é de tristeza é porque eu queria coisas simples como fazer minha comidinha. É pedir muito?” Não é pedir muito, Maria Estela. Ela é mais uma daquelas mulheres que lutam pela sobrevivência que aqui não é figura de linguagem. Estou falando em se manter vivo mesmo. Talvez isso ajude um pouco a entender o imediatismo destas pessoas.

Nas ruas mal você acabou de tomar café da manhã e já pensa o que vai comer no resto do dia. Precisa pensar em como não ser roubado ou apanhar. O dormir já é outro passo. A decisão de dormir ou não pode custar sua vida. E no limite este é o único bem de quem está nas ruas. Isso mesmo. Eu não disse o maior bem. Disse o único. Depois de um longo processo de saída das ruas, hoje Maria mora em uma pequena casinha alugada num bairro de São Roque que paga com seu trabalho com material reciclável. Sua resignação, luta e esperança continuam me inspirando.

*Nome fictício e imagem meramente ilustrativa para proteger a identidade da entrevistada.

Foto

Rogério Alves

Rogério Alves estudou regência na ULM (Universidade Livre de Música), é formado em prática de regência pelo Conservatório J. S. Bach e Gestão Pública pela UNIP. Atua na área da cultura, educação e da assistência social há mais de 20 anos. Foi criador de projetos como o Auto de Páscoa, Núcleo de Artes do CEC Brasital. Foi premiado pela criação do Programa de Boca Aberta - Musicalização Estudantil - escolhido para...

ver mais
Publicidade:

mais de Rogério Alves

Comentários:

1