As intenções de Jair Bolsonaro

As últimas atitudes do presidente evidenciam, cada vez mais, sua real intenção ao investir no caos

As intenções de Jair Bolsonaro

Em meu último texto, escrevi, neste mesmo espaço que durante uma crise sem precedentes, o presidente da república estava mais preocupado em “mitar” do que propriamente assumir a posição de um estadista e liderar o país nesse momento delicadíssimo. Entretanto, até aquele momento, suas intenções por trás dessas atitudes no mínimo controversas, não passavam de mera especulação, mas, essa semana, o presidente deixou bem claro qual são seus objetivos.

Na última terça, dia 31/03, Bolsonaro, em pronunciamento na TV, chegou até a adotar um tom mais ameno no discurso contra o isolamento social e gerou uma esperança de que finalmente o governo endossaria as diretrizes recomendadas pela OMS mas foi apenas um raro momento de lucidez do presidente. Dias depois, ele compartilhou um vídeo de um possível desabastecimento no Ceasa Minas, em Contagem-MG, mas foi rapidamente desmentido e obrigado a apagar o vídeo de “fake news” junto com um pedido de desculpas. Mas foi na quinta-feira que Jair Bolsonaro chegou ao ápice da irresponsabilidade. Começou com a postagem de um vídeo nas suas redes onde uma mulher, no meio de uma aglomeração, em frente ao Palácio da Alvorada, pede o fim da quarentena e chega até a pedir uma intervenção militar, com o presidente no final dizendo que muita gente pensava como ela. Mais tarde, no lugar de suas habituais “lives” de quinta, ele deu uma entrevista à Jovem Pan. Nessa entrevista, ele disse que não estava se bicando com o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, e que muitas vezes faltava humildade ao ministro, devido à sua independência em relação ao presidente. Bolsonaro ainda afirmou que espera apoio popular para tomar medidas mais “enérgicas” contra o isolamento pois não tem uma maioria consolidada no congresso. É preciso analisar todas essas atitudes do presidente da República para que se entenda seu objetivo ao investir no caos.

É impressionante como o relativo sucesso de Mandetta incomoda Bolsonaro. É importante ressaltar que Mandetta não faz um trabalho excepcional mas que se destaca por ser uma liderança que tem como norteador a ciência, no meio de um governo cheio de “terraplanistas da ciência”, que acreditam que é possível rebater trabalhos científicos com opiniões baseadas no puro achismo. Voltando ao ciúme de Bolsonaro em relação ao ministro da saúde, me estranha um presidente que sempre se gabou de ter montado uma equipe ministerial galgado na capacidade técnica dos ministros e não por questões políticas, se incomodar por um ministro fazer um trabalho técnico enquanto o próprio presidente quer politizar uma questão em que não cabe opiniões. Nessa segunda, Bolsonaro estava certo de que demitiria Luiz Henrique Mandetta mas a reprovação nas redes sociais o fez voltar atrás. É impressionante como o presidente tenta passar uma imagem forte (principalmente quando levamos em conta seu histórico de atleta), mas é extremamente covarde em alguns aspectos e simplesmente não consegue se manter firme em suas decisões. Nesse caso, melhor para o Brasil, a demissão de Mandetta e um possível remanejamento de Osmar Terra no cargo seria um desastre total para o país. Terra é um desses conspiracionistas que transformaria o Brasil numa verdadeira bomba relógio, já que é contra o isolamento social e adota teorias baseado no puro achismo.

Agora chegamos ao ponto principal disso tudo: Por que Jair Bolsonaro politiza tanto uma crise desse porte? Analisando essas suas últimas atitudes fica clara sua intenção em aplicar um autogolpe. Bastidores indicam que o Exército reprova essas atitudes de Bolsonaro e que o mesmo não conta com o apoio da instituição. Esse teria sido o motivo do discurso mais ameno do dia 31/03. Sabendo disso, o presidente investe no caos social, que pode tomar conta do país, para que o que ele chama de “povo”, “clame” uma intervenção militar e assim seu sonho autoritário se torne realidade. Isso ficou muito claro quando ele posta um vídeo onde uma mulher pede que o Presidente coloque os militares na rua e quando ele diz na entrevista que necessita que o povo peça por medidas mais enérgicas. No meio disso tudo me pergunto qual seria a função de uma intervenção militar nessa crise. Os militares apontariam as armas para os comerciantes para que estes abrissem suas lojas? Fica a pergunta para que o inteligentíssimo Jair Bolsonaro ou o genial Carlucho respondam.

O mais engraçado disso tudo é que no “Incrível mundo de Jair Bolsonaro”, ele tem total apoio da população nessas medidas mas as últimas pesquisas de opinião mostram o oposto disso. Segundo pesquisa do Datafolha, divulgada no dia 03/04, o presidente tem apenas 33% de aprovação na gestão da crise do Coronavírus e em pesquisa, divulgada também pelo Datafolha, no dia 06/04, 76% das pessoas são favoráveis ao isolamento social, política que vai contra os ideais de Jair Bolsonaro. Esse seu plano de plantar o caos para colher o golpe, além de atrasar o país e poder causar milhares de mortos, traz prejuízos enormes para o próprio Bolsonaro. Sua popularidade cai a cada nova pesquisa divulgada e seu prestígio junto aos militares é cada vez mais baixo. É durante crises e tempos difíceis que vemos quem são os grandes governantes e Bolsonaro se mostra cada vez mais incapacitado para o cargo, aliás, o que esperar de um deputado que ficou 28 anos no Congresso Nacional, aprovou apenas um projeto mas que foi extremamente eficiente em colocar três filhos na política.

A verdade é que se continuar nessa levada, a previsão é de que o presidente não tenha vida longa no cargo. O STF e o Congresso Nacional já não estão em sintonia com o Poder executivo faz muito tempo, seu apoio popular está desmoronando, excetuando aqueles que o apoiam cegamente e que necessitam apenas de uma teoria da conspiração diária para suprir toda essa vontade insaciável de se submeter às loucuras da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho e todos os blogs do laranjal. Essa falta de sintonia entre os poderes, baixo apoio popular e traquejo político lamentável do presidente, são alguns dos ingredientes fundamentais para um possível impedimento. Um dia essa crise chegará ao fim e Jair Bolsonaro terá de responder por tudo que fala e faz, enquanto esse dia não chega, fiquemos em casa para evitar o caos maior e impedir as loucuras desse senhor que comanda nossa nação. Seguimos.

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Léo Faria

Leonardo é formado em Gestão pública pela Uninove e atualmente cursa Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sigam-me no instagram: @leofaria12

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