O curioso caso do presidente que só queria mitar

É importante que a população brasileira tenha noção da real gravidade da pandemia

O curioso caso do presidente que só queria mitar

São tempos estranhos os que vivemos para usar um eufemismo. Vivemos numa pandemia sem precedentes na contemporaneidade e ao mesmo tempo temos, comandando o país, um presidente que parece ainda estar num período pré-eleitoral, onde existe uma guerra política geral e há uma necessidade de todos os dias ele dizer ou fazer algo que levem seus cegos apoiadores ao êxtase, as chamadas “mitadas”. É impressionante como, no meio de uma crise do tamanho da atual, Jair Bolsonaro faz questão de politizar quase que todos os seus atos e enfatizar que todas essas medidas vão contra a mídia, tida como a grande inimiga do governo, e contra todos os comunistas poderosos que fazem de tudo para “boicotar” o Governo Jair Bolsonaro. Analisemos os atos do presidente nesses últimos dias para identificar a completa politização de seus atos.

Iniciemos pelo primeiro ato grotesco protagonizado pelo presidente Jair Bolsonaro. No dia 15/03, numa manifestação apoiada por ele, contra o Congresso e o STF, ele compareceu, distribuiu apertos de mãos e abraços em seus apoiadores, mesmo tendo acabado de chegar de uma comitiva vindo dos EUA em que depois se descobriu que haviam 23 infectados pelo Coronavírus. É importante ressaltar que no dia 15/03 já se tinham confirmados infectados no Brasil e se havia uma ideia do dano causado pela COVID-19, o que demonstra a tamanha irresponsabilidade do presidente da República nesse dia.

Mas tudo começa a ficar extremamente bizarro no dia 24/03, quando o presidente faz um pronunciamento em rede nacional que parece ter sido retirado de um filme de sátira. Logo no início, ele ataca os meios de comunicação, dizendo que estes, trabalhavam contra a estratégia do governo, disseminando o pânico e a histeria. Nesse momento, seria preciso que o presidente esclarecesse quais foram os momentos, e de que maneira os meios de comunicação incitaram o pânico entre a população. Ora, não se deveria noticiar os avanços do Coronavírus pelo mundo, os danos causados por ele e sua letalidade? Nesse aspecto, vejo o trabalho da imprensa como fundamental, pois, de maneira maciça, foi distribuído informações de prevenção do vírus. Uma prestação de serviço gigantesca. O pronunciamento continua de maneira catastrófica. O presidente dá uma alfinetada nos governadores que estão tomando medidas mais severas contra o vírus, questiona o fechamento de escolas, trata a doença como gripezinha e ainda consegue achar tempo para atacar Drauzio Varella e a Globo. Impressionante como um simples abraço numa transexual incomodou tanto a militância bolsonarista. Bolsonaro ainda chama a atenção para seu histórico de atleta, mas esse é um aspecto que quero chamar a atenção mais para a frente.

A repercussão do pronunciamento foi o pior possível. Ah, é importante que se diga que quando eu falo de repercussão, eu não incluo os que são contra por serem contra nem os que são a favor por ser a favor, levo em consideração a maioria da população que é apartidária e que sabe identificar quais atitudes são benéficas para ela e quais não são. Ao invés do presidente repensar sua posição devido à repercussão, no outro dia ele gravou um vídeo em frente ao Palácio da Alvorada ironizando jornalistas, em mais uma de suas “mitadas”, levando ao delírio alguns de seus apoiadores que estavam presentes. Curiosamente ele não apertou e nem abraçou seus apoiadores nesse dia, não entendi o medo de um homem com histórico de atleta pegar uma “gripezinha”.

Seria leviano de minha parte dizer que é completamente incompreensível o modo como pensa a parte do governo que “pensa” com os dois pés no chão, e não os quatro. É evidente que a questão econômica é importantíssima. Independente da crise do Coronavírus, o Brasil já passaria por dificuldades econômicas nesse ano. As previsões de crescimento diminuíam a cada nova revisão. Entretanto essa crise, de fato, irá agravar muito a crise econômica e prejudica muito, em especial, os trabalhadores autônomos e informais, que não possuem trabalho fixo. A proposta do governo de isolamento vertical é ineficaz quando confrontada com os fatos. Essa ideia de isolar os grupos de riscos e os sintomáticos, enquanto os outros seguem a vida normal se torna extremamente problemática quando se leva em conta um estudo da revista Science, umas das mais conceituadas do mundo, que afirma que em Wuhan, na China, 86% dos casos não estavam sendo identificados e portanto viviam a vida normalmente, infectando quem estava a sua volta, o que torna inviável o isolamento vertical e é nesse momento que a intervenção do Estado na economia se torna essencial. E antes que venham com esse papo que intervenção estatal na economia é coisa de esquerdista, analisemos alguns casos no mundo. Os EUA estão fazendo a maior medida emergencial econômica de sua história. No total serão gastos US$ 2,2 trilhões e a principal medida é: dinheiro na mão do consumidor para que a economia possa girar. No Reino Unido, o governo pagará até 2.500 libras por mês para os autônomos. Seriam Donald Trump e Boris Johnson os próximos a serem incluídos na lista de comunistas?

Vejo com muita preocupação esse aproveitamento político que o presidente tenta a todo custo conquistar nessa crise. Para ele vale muito mais dar uma cortada num jornalista para “mitar” e obter o apoio da claque do que tomar medidas que de fato enfrentem essa crise da maneira correta. Bolsonaro é um populista nato. Essa história de histórico de atleta para se mostrar um líder forte e a ideia de que se a mídia critica o governo, está criticando o país como um todo, não fazendo a distinção entre governo e nação. Além de tudo, ainda apoia carreatas de seus cegos militantes e ricos empresários que irão fazer tudo que o presidente mandar, Bolsonaro mostra não ter noção da importância do cargo que ocupa. Espanta-me ver como questões cientificas se tornam questões meramente políticas nesse governo. Caso você apoie o isolamento social, você é um comunista que não quer que o país vá para a frente e que faz questão de remar contra o barco. Ora, se o barco vai em direção à uma cachoeira, é de bom tom que se reme contra mesmo. Não se trata mais de apoiar governo X ou Y e sim de apoiar uma causa que salva vidas. Vazaram declarações bizarras de empresários como “O país não pode parar porque irão morrer 7 ou 8 mil”. Quando passamos a tratar pessoas como números, temos que começar a repensar várias coisas. Caso um ente querido seu esteja nessa estatística, ela automaticamente deixa de ser apenas um número e se entende a verdadeira importância de se prevenir contra essa doença que está virando o mundo de cabeça para baixo.

Apesar de todas as perspectivas ruins, é importante que a população brasileira tenha noção da real gravidade da pandemia do Coronavírus e não se deixe abalar pelas atitudes bizarras de quem deveria ser o exemplo. A união e a força do povo é maior e mais forte que qualquer governo. Seguimos juntos!

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Léo Faria

Leonardo é formado em Gestão pública pela Uninove e atualmente cursa Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sigam-me no instagram: @leofaria12

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