O curioso ódio ao futebol moderno

Episódios recentes fazem com que as pessoas esqueçam toda evolução recente do futebol

O curioso ódio ao futebol moderno

No último final de semana, dois fatos acirraram os ânimos no mundo do futebol. Um deles foi a expulsão de Janderson, do Corinthians, levando o segundo cartão amarelo, após marcar um gol contra o Santos e ir comemorar com a torcida. O outro fato foi o cartão amarelo dado ao Neymar, após o jogador brasileiro tentar aplicar uma carretilha no adversário. Esses dois fatos fizeram com que os mais saudosistas e os mais revoltados destilassem todo o seu ódio ao tal “futebol moderno” e implorassem a volta do chamado “futebol raiz”. Antes de tudo, para entrar nessa discussão, é preciso ilustrar o que se entende como futebol moderno e raiz.

O futebol é um fenômeno cultural e conforme a sociedade, o futebol tende a evoluir também. Essa evolução tem reflexos claros no futebol atual, um exemplo simples era de que antigamente não se tinha muito controle do público que ia aos estádios. Na final da Copa do Mundo de 1950, realizada no Maracanã, se tem registro de que quase 200 mil pessoas acompanharam o Uruguai derrotar o Brasil por 2 a 1, naquele que ficou conhecido como ‘Maracanazo’. Atualmente, por questões de segurança, o Maracanã tem como capacidade máxima 78 838 espectadores. Vários outros fatores são atribuídos ao futebol moderno como a proibição de bandeiras e instrumentos em alguns estádios, torcida única nos clássicos, a proibição de alguns tipos de comemorações, entre outras coisas. Fato é, que em alguns aspectos, o futebol moderno freou algumas coisas que eram clássicas no esporte, mas que podem ser facilmente resolvidas, mas os ferrenhos críticos à essa modernidade fazem questão de exacerbar os pontos negativos do futebol moderno e tapam os olhos para coisas terríveis do chamado futebol raiz que é tão aclamado por uma parte dos torcedores.

A modernidade no futebol, trouxe a tecnologia aplicada ao esporte, o que na maioria das vezes só trouxe benefícios em diversos aspectos. Atualmente, direto do seu celular, é possível acompanhar, ao vivo, qualquer partida de futebol, realizada em qualquer lugar do mundo. Até a década de 90, era quase impossível se acompanhar um grande craque atuando fora do Brasil, apenas em Copa do Mundo era possível ver esses jogadores , fora que grandes jogadores de meados do Século XX tem muito pouco registro audiovisual de suas atuações como Di Stéfano, Puskás, Bican, Zizinho, Leônidas da Silva, Friedenreich, entre outros. Um outro aspecto em que o futebol moderno traz muita evolução é na parte fisiológica. Antigamente, era normal que grandes jogadores abandonassem a carreira devido à sérias lesões ou que passassem muito tempo se recuperando. Com a tecnologia atual, é muito raro que isso aconteça. Um exemplo claro é a comparação de lesão entre Bruno Henrique e Tostão. Tostão, grande craque do futebol mundial, em 1969, levou uma bolada no olho que rasgou e deslocou sua retina. O craque quase ficou fora da Copa de 1970 mas essa mesma lesão encurtou sua carreira, fazendo-o a aposentar em 1973, com apenas 26 anos. Bruno Henrique, em 2018, ainda jogador do Santos, sofreu uma lesão parecida após levar uma bolada no olho, mas a atual tecnologia dispensou a necessidade de uma cirurgia e evitou o deslocamento da retina, facilitando a recuperação do jogador, tanto que em 2019, pelo Flamengo, Bruno Henrique teve um ano irretocável. Um outro aspecto fundamental trazido pelo futebol moderno é a evolução tática que se vê quase que semanalmente no futebol mundial. Atualmente, o futebol é muito mais dinâmico e rápido do que antigamente, muito por causa da evolução física dos jogadores, também fruto do futebol moderno. Os mesmos que reclamam do futebol moderno e clamam a volta do futebol raiz, deleitam-se ao assistir à Premier League ou às atuações de gala de Lionel Messi, mas garanto que teriam enorme dificuldade em assistir uma partida de futebol dos anos 60 ou 70. Mas talvez esse ponto seja crucial nessa dicotomia entre futebol raiz e futebol moderno. A sociedade, e o futebol mudaram muito nesse período de tempo, mas, talvez, alguns torcedores não tenham mudado tanto.

O sociólogo alemão Max Weber dizia que os indivíduos agem de acordo com suas visões de mundo e essas visões de mundo advém de um entendimento coletivo. Me parece que o entendimento coletivo de grande parte dos torcedores, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, ainda está preso no Século XX. Infelizmente, ainda é comum ver nos estádios manifestações racistas e homofóbicas por parte de torcedores. Grande parte da sociedade atual não tolera mais esse tipo de atitude, refletindo em leis de combate ao racismo e à homofobia e isso acaba freando diversas pessoas que, infelizmente, ainda pensam dessa forma mas, essas mesmas pessoas, quando entram num estádio de futebol, transformam-se e parece que param de pensar racionalmente e colocam para fora todo o ódio acumulado xingando o adversário das piores coisas possíveis e em pleno Século XXI tendo atitudes racistas, homofóbicas e misóginas. Atitudes como essas acabam afastando mulheres e homossexuais tanto da prática do futebol como de frequentar os estádios.  Entretanto, há uma diferença gritante no tratamento dado nesses casos atualmente e no tratamento que era dado no “futebol raiz”. Antigamente, não havia qualquer retaliação caso o torcedor usasse algum xingamento racista ou homofóbico nos estádios. Relatos de jogadores como o próprio Pelé, descrevem estádios em toda a América do Sul com um clima extremamente hostil, com diversos xingamentos racistas e tudo isso era tido normal com a justificativa de que “faz parte do futebol”. Num passado não tão distante, em 2017, o jogador Richarlyson, apesar de ter uma carreira extremamente vitoriosa, ao se apresentar no Guarani, sofreu uma represália gigantesca por parte da torcida do próprio time com protestos e bombas, pelo simples fato do jogador supostamente ser homossexual.

Fatos como todos esses apresentados me levam ao questionamento: a quem interessa a volta desse futebol raiz que muita gente pede? Por que há tanto ódio ao futebol moderno? Nunca o futebol foi tão inclusivo. A Copa do Mundo de futebol feminino em 2019 bateu recordes de audiência e de transmissão. A modalidade vem crescendo cada vez mais em todo o mundo. O próprio futebol masculino vem se aprimorando cada vez mais, nunca se viu um nível tão alto de competitividade como o atual. É evidente que, como em tudo na vida, precisa se encontrar a justa medida no futebol moderno. Não tem nexo dar cartão por um drible ou por uma comemoração, mas também não tem nexo pedir para voltar um futebol raiz que involui a sociedade como um todo. O futebol e a sociedade não têm mais espaço para homofobia, misoginia, racismo e qualquer preconceito que afaste as pessoas e não as atraia para esse esporte maravilhoso. Viva o futebol moderno e tudo de bom que o engloba!

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Léo Faria

Leonardo é formado em Gestão pública pela Uninove e atualmente cursa Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sigam-me no instagram: @leofaria12

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