Um sorriso

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Um sorriso

Existem momentos em que a alma das pessoas sai de suas bocas, de seus olhos, de seus ouvidos e as lágrimas escorrem silenciosas por suas faces. No último final de semana, essa oportunidade ocorreu. Depois de um dia inteiro de reuniões, palestras e reencontros a surpresa: pela porta lateral do anfiteatro entraram em fila doze crianças com camisas e barretes vermelhos. Na frente, solene e ansiosa, caminhava a “tia” a distribuir sorrisos. Olhos espertos e curiosos deixavam transparecer emoções, expectativas do desconhecido, espera do depois. Do nosso lado aplaudíamos e aguardávamos em silêncio. Um a um reuniram-se no pequeno palco. Olhos bem abertos iam da professora ao público. Eram mãozinhas a esfregar emoções mal contidas nos poros, sentimentos a se espichar por entre as janelas, cortinas, paredes, dadeiras, colunas e professores.

Em frações de segundos fez-se silêncio. As mãos da regente se levantaram e das pontas de seus dedos caminhava a mensagem para o coral e plateia. Ávidos procuravam encontrar palavras e suas faces ansiosas buscavam sinais de aprovação. As melodias fluíam e a plateia em silêncio respirava com cautela. Furtivas algumas lágrimas corriam aqui e ali.

Após um dia cansativo sentíamos vontade de estar em casa, mas eletrizados viajávamos em nossos pensamentos enquanto soavam as canções. Ali, bem ali à nossa frente estava o melhor presente de Natal que poderíamos desejar. A expressão individualizada e coletiva daquele coral a todos excitava. O cansaço desaparecera como que por encanto, o calor que nos envolvera ao longo do dia não mais incomodava e o timbre daquelas vozes ora seguras, ora tímidas nos lembrava de muitos momentos diluídos no espaço. Eram adultos que voltaram a pensar, a sonhar, a desejar, a ser crianças. Cada lágrima derramada, cada nota cantada, cada palavra pronunciada fluía, penetrava profundamente e a respiração de todos adquiria uma nova frequência convivíamos com a sensação de que um dia eles poderiam ser nossos alunos, nossas falas. Mais ainda, que nossas ações iriam contribuir para a construção de diferentes pessoas, as quais iriam formar outras e outras a multiplicar conhecimentos ao longo de diferentes momentos.

Mas a apresentação estava chegando a seu final, e de pé a plateia explodia em aplausos, em um amor alongado em ondas de alegria de todos para todos. Nem bem ela se acalmou do fundo do anfiteatro explodiu uma voz conhecida: Ôh!Ôh!Ôh! De vermelho e com as barbas desgrenhadas acompanhado, por duendes Papai Noel percorreu o imenso espaço que o separava das crianças do coral e das crianças sentadas na plateia tomada por professores.

Numa imensa ciranda de emoções e sonhos o pião da vida rodava intensamente no chão e nas mentes buliçosas que ali se faziam presentes. Não mais se viam as suas cores, mas seu zumbir alegre a distribuir pacotes. Pacotes coloridos, cheios de fitas para aquelas mãos e braços que se estendiam com respeito, ansiedade e carinho inusitado e inesperado. O sonho para o qual todos haviam contribuído, dias antes, sem saber que mãos estariam ali para receber não presentes, mas sonhos transformados em realidade.

Cobertas de aplausos, saíram em fila sorrindo, abanando as mãos e segurando com intensidade embrulhos que eram de seu tamanho. De pé ficamos a olhar seus últimos vestígios, a despedida do sonho, do Natal que passava festivo e alegre e deixava um rasto de amor por entre cadeiras e colunas secas e vetustas e uma imensa sensação de paz!

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Francisco Sacramento

Palestrante/professor especializado em atendimento ao cliente e gestão de recursos, Francisco Sacramento. Administrador de Empresas Graduado e Pós-graduado pela Fundação Getulio Vargas – SP, mestre em Administração pela UMESP – Universidade Metodista de São Paulo. Professor, palestrante, fotógrafo, orquidófilo. Membro da Academia de Letras Araçariguama (cadeira Guilherme de Almeida). É autor de artigos científicos ...

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