Tempo de redescobrir

Confira o novo artigo de Francisco Sacramento em sua coluna Na Ponta da Agulha

Tempo de redescobrir

As horas de chuvas intermitentes são capazes de trazer à mente e ao corpo sensações diferenciadas: frio, umidade, percepção de cores mais vivas, além da sensação de que é necessário lavar, esfregar muito bem o terraço da casa e do espírito. Dias atrás encontrei uma citação atribuída a Fernando Pessoa: “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre à margem de nós mesmos.” A mente de quem escreve está sempre atenta a manifestações sutis, a pensamentos capazes de indicar a solução de situações que afligem o escritor, e a pessoas que, apesar da distância que as separa, têm as mesmas interrogações, dúvidas, expectativas, incertezas, inseguranças, alegrias e tristezas muitas vezes expressas em apenas algumas palavras: “e se...”

Diz a bíblia que “há um tempo para nascer, um tempo para viver e um tempo para morrer”. Do ponto de vista físico não temos controle sobre os momentos de nosso nascer e morrer. Esses são acontecimentos que transcendem à nossa vontade, mas temos a capacidade de alçar outros voos, de se redescobrir, em busca de novas árvores, de novas presenças, de novos cenários. O permanecer inerte à espera de fatos que desejamos transformam-se em um prêmios de loteria os quais possuem uma chance muito pequena de ocorrer. Como diz Fernando Pessoa é necessário e importante “abandonar e ousar”. Às vezes é necessário se apossar de um meio de transporte ou de comunicação e voar para novas realizações e lugares como fazem periodicamente aves de arribação. É o alçar do voo que intuitivamente busca novas paragens.

Essas ações são, no entanto, extremamente difíceis e porque não dizer dolorosas. Nessas ocasiões amarras devem ser cortadas, esquecidas, É o momento de descongelamento de usos e costumes, arraigados em nossas entranhas, e da busca incessante e questionadora de novos hábitos e comportamentos. É o olhar construtivo repleto de indagações capaz de incomodar, de mover e remover estruturas antigas já alicerçadas e aparentemente inamovíveis. É o retirar do bolor e das teias de aranha a proliferar dentro de cada um; é o acreditar que é possível, ainda que muitos critiquem e não entendam ou aceitem esse processo de mudanças; é o sair de dentro de si mesmo para se projetar novamente repleto de vida; é a primavera que renasce com toda a sua força, cores e manifestações. Existe idade para isso acontecer? Não! A juventude se encontra no cérebro de cada qual e não está associada a seu nascimento. Fato que nos remete a uma questão: será que o mundo é realmente dos jovens ou daqueles que encontraram em si mesmos a fonte de juventude?

O olhar, o sonhar, o buscar, o ansiar por outro momento não ocorre tão distante de nós. Basta arriscar! Essa é uma travessia que nos distancia das margens da vida e nos coloca novamente em um curso de águas ora caudalosas, ora repletas de remansos e de imagens poéticas. É preciso pensar vertical e transversalmente!

Para realizar-se através desse rejuvenescimento constante é, no entanto, necessário que não deixemos que as nossas angústias e dúvidas nos façam voltar atrás e nos joguem no esquecimento que sempre poderá nos fazer questionar nossa falta de decisão e a nos conduzirá à eterna exclamação: “há... se tivesse feito...”

Façamos como as garças ao deixar para trás o lago e alcemos um novo voo em direção a outros espetáculos.

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Francisco Sacramento

Palestrante/professor especializado em atendimento ao cliente e gestão de recursos, Francisco Sacramento. Administrador de Empresas Graduado e Pós-graduado pela Fundação Getulio Vargas – SP, mestre em Administração pela UMESP – Universidade Metodista de São Paulo. Professor, palestrante, fotógrafo, orquidófilo. Membro da Academia de Letras Araçariguama (cadeira Guilherme de Almeida). É autor de artigos científicos ...

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