A defasagem dos treinadores brasileiros

A polêmica declaração de Jorge Jesus reacende a discussão sobre o desempenho dos treinadores brasileiros

A defasagem dos treinadores brasileiros

Nas últimas semanas, uma declaração de Jorge Jesus, atual treinador do Flamengo, vem causando grande polêmica. Quando ainda treinava o Al Hilal, o treinador português deu a seguinte declaração à revista francesa “So Foot”: “O treinador brasileiro está ultrapassado taticamente. Sabe por quê? Porque sempre tiveram grandes jogadores e esses resolviam os problemas táticos sozinhos. Os treinadores brasileiros tinham menos necessidade de criar ideias coletivas, por causa disso estão ultrapassados”. Essa afirmação gerou diversos protestos de todas as partes, mas quem tem razão nesse debate?

Analisemos os as equipes nos anos em que a Seleção Brasileira foi campeã do mundo. Nos três primeiros títulos do Brasil: em 1958, 1962 e 1970; a seleção utilizou o mesmo esquema tático: o famoso 4-2-4. Em 58 e 62 o quarteto de ataque brasileiro tinha como formação: Zagallo, Vavá, Garrincha e Pelé; lembrando que, na Copa de 62, Pelé se lesiona no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, ficando fora de todo o torneio, mas é substituído brilhantemente por Amarildo, mantendo o esquema tático. Na Copa de 70, o quarteto de ataque era formado por Rivellino, Jairzinho, Tostão e Pelé. Fica evidente que com jogadores desse nível técnico, não é necessário uma grande estratégia para se ser campeão, o talento e o instinto falavam mais alto. O curioso é que se passou 12 anos jogando de maneira muito semelhante, com alguns jogadores fazendo funções bem parecidas como foi o caso de Garrincha e Jairzinho, dois jogadores que atuavam pela direita mas que faziam a infiltração em direção ao centro, ou Nilton Santos e Carlos Alberto Torres, que apesar de serem laterais de lados opostos, subiam muito ao ataque como um elemento surpresa, vide o gol antológico de Carlos Alberto na final da Copa de 70, contra a Itália, sacramentando a vitória e o título.

É importante ressaltar que quatro anos depois, na Copa de 74, o Brasil leva um banho tático da lendária Holanda de Johan Cruyff, comandada por Rinus Michels e ali já se notava que, talvez, o Brasil pouco evoluía taticamente. O próximo título mundial só viria 24 anos depois, em 1994. A seleção de 94 ficou marcada como a seleção brasileira campeã que mais “jogava feio”. Com uma defesa extremamente sólida, o Brasil era extremamente dependente do talento de Romário, que não decepcionou e decidiu em diversos momentos, mas, de fato, era uma equipe que apresentava um baixo repertório de jogadas. Em 2002, a Seleção Brasileira apresentou um aumento no repertório tático mas, ainda sim, necessitava muito do talento de Ronaldo e Rivaldo, que em momentos de aperto decidiam os jogos, como na final, onde Ronaldo marcou duas vezes. Observando dessa forma, Jorge Jesus tem certa razão em dizer que o Brasil sempre utilizou mais o talento do que a inteligência tática e isso fica mais claro quando analisamos as últimas quatro campeãs do mundo. As últimas quatro campeãs: Itália, Espanha, Alemanha e França; apesar de terem grandíssimos jogadores, não tiveram um ou dois grandes craques que se sobressaíram, o conjunto sempre prevaleceu.

Um outro fator que contribui para a tese de que há uma defasagem entre os técnicos, do Brasil, para os outros é o baixíssimo número de brasileiros treinando os grandes times do mundo. Dá para contar nos dedos os treinadores que dirigiram grandes times na Europa. Luxemburgo no Real Madrid, Felipão no Chelsea e Leonardo no Milan são uns dos poucos exemplos. Atualmente, o único treinador brasileiro que comanda uma equipe na elite europeia é Sylvinho, que faz sua estreia como treinador no Lyon da França. O curioso é que o Brasil é quase que exclusivo na exportação de treinadores para a Europa. Alguns países da América Latina já forneceram treinadores para os grandes da Europa como é o caso dos argentinos Mauricio Pochetino e Diego Simeone, além do chileno Manuel Pellegrini. Um outro fato que ilustra a tese do baixo nível dos treinadores brasileiros foi uma lista dos melhores técnicos da história, realizada pela famosa revista francesa “France Football”. A lista apresentava os 50 melhores treinadores de todos os tempos e contava apenas com um brasileiro: Telê Santana, bicampeão mundial com o São Paulo, na 35ª posição.

Talvez o maior problema dos treinadores brasileiros seja um combo de arrogância e corporativismo. Arrogância no sentido de que eles não admitem a defasagem clara que há no futebol brasileiro em relação à elite europeia. Essa falta de admissão chega a ser esquizofrênica quando analisamos desempenhos recentes de equipes brasileiras internacionalmente. O Santos que foi dilacerado pelo Barcelona na final do mundial de 2012 e depois tomou de 8 em 2013, o Grêmio que na final do mundial de 2017 foi completamente dominado pelo Real Madrid e sequer deu um chute certo à gol, além de Internacional em 2010 e Atlético Mineiro em 2013 que não chegaram nem na final do mundial de clubes.

O corporativismo é visível quando os treinadores se unem para defender algum companheiro de profissão que está sendo alvo de críticas em determinado momento, ou quando se unem para alfinetar treinadores estrangeiros, como está acontecendo gora com Jesus e Sampaoli, dois treinadores de fora e que estão fazendo ótimos trabalhos até aqui. Enquanto essa arrogância e esse corporativismo não serem superados, dificilmente haverá uma evolução tática no futebol brasileiro e isso influencia diretamente no desempenho da Seleção Brasileira. É verdade que há uma nova geração de treinadores que se mostram mais estudiosos e que estão mais ligados com o que ocorre fora do país, como Roger Machado, Tiago Nunes, Rogério Ceni, Odair Hellmann, entre outros e que futuramente possam se equiparar aos treinadores dos grandes times europeus. O Brasil continua sendo um grande celeiro de craques, mas apenas bons jogadores não são mais o suficiente para a montagem de uma equipe campeã.

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Leonardo Casemiro de Oliveira Faria

Leonardo é formado em Gestão pública pela Uninove e atualmente cursa Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sigam-me no instagram: @leofaria12

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