O desejado pergaminho

Tom Coelho fala sobre nossas experiencias ao longo da vida e como elas nos amadurecem como seres humanos

O desejado pergaminho

Infância alegre e feliz à lembrança remete de brincadeiras que caíram em desuso. Jogos que não podiam ser individuais, mas apenas coletivos, e que por conta disso já nos ensinavam a magia de construir equipes e formar times.

Peripécias cultivadas com mãos arteiras e pés descalços; bolas, piões, pipas e bonecas; joelhos esfolados, galos na cabeça; frutas na copa das árvores, plantar bananeira. Tudo interrompido apenas pelo compromisso da lição de casa, ou “o dever”. Feito isso, podia-se aproveitar mais um pouco do luar que iluminava as ruas e da brisa que as varria.

Anos depois, adolescência plena, os ditados viraram redação, e as tabuadas, equações. A educação apropriou-se do expediente dos “trabalhos” como metodologia. Construir instrumentos musicais com materiais descartáveis, elaborar um informativo a partir de notícias recortadas de jornais e revistas.

Um salto no tempo e a memória vislumbra noites que avançam madrugadas adentro, livros no colo, olhos cansados, temas diversos sendo estudados para avaliações rotineiras chamadas “provas”, como quem denuncia que devemos comprovar que entendemos, que decoramos, mas não necessariamente que aprendemos.

Ensino médio que vai, vestibular que passa, faculdade que chega. Os ditados, que outrora se transformaram em redações, agora evoluem para teses e monografias. As tabuadas, antes promovidas a equações, ganham o status de cálculos diferenciais e integrais.

Na infância, você questiona o porquê de memorizar os nomes dos rios. Mas, tudo bem, aceita fazê-lo para granjear uma boa nota e, por conseguinte, o sorriso estampado no rosto de seus pais.

Na adolescência, você se pergunta os motivos pelos quais deve estudar Química se pretende ser um historiador; Biologia, quando deseja ser engenheiro. Mas, tudo bem, supera mediocremente as aulas e avaliações, afinal, na faculdade estará isento deste “destempero”.

No ensino superior, custa-lhe aceitar que cálculos estatísticos tenham que ser conduzidos a partir de fórmulas matemáticas quando o computador está à disposição para apontar o resultado em uma fração de segundos. Mas, tudo bem, você aceita mais esta, tudo porque está desde sua mais tenra idade em busca do desejado pergaminho: o diploma.

Diploma em punho, surge a decepção de que ele nada garante, seja a percepção de conhecimento, seja a segurança de um emprego. A descoberta maior é de que ele é insuficiente. E, agora, talvez até indesejável, porque embotou sonhos e talentos do passado. Frustração com gosto de traição.

As portas foram apenas destrancadas, mas devem ser abertas por dentro de cada um de nós. Se você puder resgatar sonhos e talentos, não apenas na memória, mas também na ação, poderá refletir: “Vivi. E aprendi a viver”.

Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de nove livros. E-mail: [email protected]. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.

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