A doença começa na inflamação crônica silenciosa

Dr. Mauricio Egydio conta uma história que mostra que a prevenção e cuidado com a saúde é essencial

- Foto: Divulgação

Álvaro era comerciante, tinha uma dessas farmácias de bairro e atuava na profissão desde os 12 anos de idade. Era um farmacêutico prático daqueles que não vemos mais hoje em dia.

Com 40 anos, Álvaro já apresentava sinais de cansaço nas pernas, com sensação de congelamento e havia perdido os pelos do tornozelo. Havia uma queda evidente no desejo sexual e o aparecimento de uma pequena barriga associada ao aumento das mamas, conhecida como ginecomastia.

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Devido aos sintomas de cansaço nas pernas, Álvaro consultou alguns médicos e logo descobriu que seu colesterol estava alto e havia um entupimento das artérias abdominais e ilíacas. Este baixo fluxo de sangue arterial para os membros inferiores provocavam dores, deixavam as pernas geladas e fizeram seus pelos caírem.

Com o colesterol alto e a presença do entupimento arterial por placas de ateroma[1], logo a causa foi estabelecida: aterosclerose por aumento do colesterol.

Medidas dietéticas e medicamentosas foram tomadas de imediato para baixar o seu colesterol. Reduziram-se todas as gorduras da dieta como ovos, manteiga, banha de porco, o bacon que ele tanto adorava, carnes gordas como picanha, frituras em geral, leite integral, queijos gordurosos e condimentados, enfim, tudo aquilo que poderia ter um resquício de colesterol.

Também foi introduzido medicamentos à base de estatina, para bloquear a HMG-CoA, a enzima responsável pela cadeia bioquímica do colesterol.

Com todas estas medidas, seria esperado uma redução da doença, ou pelo menos sua estabilização. Mas nada disso aconteceu!

Com a orientação de cortar todas as gorduras da dieta, Álvaro substituiu queijos curados pelo queijo branco, carnes gordurosas pelo peito de frango sem pele, manteiga pela margarina sem colesterol, eliminou as frituras, reduziu o consumo de castanhas de caju e amendoim que tanto gostava, assim como, nunca mais colocou bacon na boca. Leite? Somente desnatado!

Mas, a partir do momento em que você reduz uma fonte de macronutriente, neste caso a gordura, o corpo precisa compensar esse déficit por outra fonte de macronutriente. Por esse motivo, ao se reduzir as gorduras da dieta, naturalmente você se adapta aumentando a quantidade de carboidratos, para repor a energia faltante que antes era retirada das gorduras alimentares.

Fazem parte dos carboidratos tudo aquilo que se transforma em glicose no seu sangue após a digestão, como pães, massas, arroz, batatas cozidas, etc. Álvaro seguiu as recomendações da Pirâmide Alimentar da OMS. Uma dieta rica em alimentos à base de cereais, farinhas de trigo, frutas, legumes, carnes magras, além de reduzir drasticamente as gorduras alimentares.

No entanto, apesar de toda esta restrição alimentar, além de usar assiduamente os medicamentos a base de estatina, Álvaro continuou evoluindo em sua doença. Passou por várias cirurgias cardíacas e vasculares, até sua morte por falência na circulação sanguínea do cérebro.

Dr. maurício Egydio e seu pai

Afinal, o que aconteceu?

Álvaro faz parte de uma das mais assustadoras estatísticas mundiais das últimas 5 décadas. Apesar de milhões de dólares em investimentos para pesquisa de medicamentos que bloqueiam o colesterol, apesar de trilhões de dólares em lucratividade vendendo estes mesmos medicamentos, ¼ das mortes nos Estados Unidos ocorrem em decorrência de doença aterosclerótica (infarto, derrame, etc.), e como se não bastasse, esta classe de doenças continua crescendo em prevalência no mundo todo.

Outra estatística muito interessante revela que mais de 50% das mortes por infarto e doença aterosclerótica ocorrem em pessoas com “colesterol normal”.

Enfim, Álvaro morreu lenta e progressivamente de uma doença inflamatória das artérias que pouco ou nada tem a ver com os níveis de colesterol. A alimentação prescrita aumentou seu consumo de carboidratos refinados, o que elevou seus níveis de insulina e aumentou ainda mais sua inflamação interna. Excesso de insulina no sangue ativa a cadeia do ácido aracdônico, aumentando e sustentando a inflamação crônica silenciosa. Lembre-se que eu disse que O SEGREDA ESTÁ NA INSULINA (reveja o artigo anterior).

Além disso, o uso prolongado de medicamentos à base de estatina inibiu o eixo dos hormônios esteroides, inibiu a absorção de vitamina D e reduziu sua capacidade de concentração e memória, por depleção de um hormônio dependente do colesterol denominado pregnenolona. O resultado disso foi a perda de diversos fatores de proteção endotelial e cardíaca, aumentando ainda mais a inflamação crônica silenciosa.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia avança em 2017 e define a aterosclerose como uma “doença multifatorial inflamatória”[2]. Segundo a Diretriz Brasileira temos: “A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica multifatorial, que ocorre em resposta à agressão endotelial, acometendo principalmente a camada íntima de artérias de médio e grande calibre”.

O colesterol está lá, presente na parede das artérias, muitas vezes desde a infância. No entanto, a perda de mecanismos protetores e o aumento da inflamação crônica provocam agressões no endotélio vascular modificando as características dos lipídios presentes na membrana, levando o LDL à oxidação. Mas alguma coisa tem que puxar o gatilho.

Em outras palavras, o colesterol está lá, assim como estão o cálcio e diversos outros elementos. Mas alguma coisa puxou o gatilho. Algum fenômeno deflagrou uma cadeia de eventos que culminou na formação e ruptura de uma placa de ateroma.

Este fenômeno CAUSAL é a inflamação crônica. E reduzir os níveis de colesterol plasmático não irá ajudar. Você precisa reduzir a inflamação crônica.

Quando Álvaro reduziu a gordura em sua dieta e aumentou o consumo de carboidratos, infelizmente sua insulina disparou. O aumento da insulina associado ao estresse da vida diária, trabalho de sol a sol, sedentarismo e tabagismo, aumentaram muito seus níveis de inflamação crônica, o que levou ao aumento ainda maior da agressão sobre suas artérias.

Enfim, Álvaro sucumbiu à inflamação crônica silenciosa e não aos seus níveis de colesterol.

Como referi também em artigos anteriores, a maior parte do colesterol circulante no sangue é produzido pelo fígado. Nosso corpo precisa um mínimo de 950 mg de colesterol diário para manter seu metabolismo saudável e o fígado é o principal produtor. Somente 15% do colesterol é oriundo da nossa alimentação. Portanto, reduzir o colesterol na dieta afetará pouco ou quase nada seu colesterol plasmático.

Além disso, seu cérebro e seus hormônios esteroides são compostos principalmente de colesterol. É essencial que as células nervosas funcionem e é igualmente essencial a produção de todos os hormônios esteroides diariamente, incluindo vitamina D, pregnenolona, estrógeno, DHEA, testosterona, cortisol e muitos outros. Estes níveis precisam ser adequados para manter a boa saúde.

Estes hormônios desempenham papel de proteção e equilíbrio homeostático que são fundamentais à vida. Portanto, inibir a síntese de colesterol com algum tipo de estatina não é uma boa estratégia.

Álvaro consumiu mais carboidratos aumentando a insulina e a inflamação crônica. Ao mesmo tempo, ele fez uso contínuo de estatina, o que inibiu a síntese de colesterol e a esteroidogênese, reduzindo sua defesas naturais. A partir de então, seu destino estava selado.

Quando consumimos mais gorduras naturais e saudáveis, esta gordura é utilizada como energia e eleva os níveis de HDL colesterol, que possui ação protetora ao nosso organismo. Por outro lado, estas gorduras, ricas em ômega 3, 7 e 9 possuem forte ação anti-inflamatória, combatendo os feitos nocivos da inflamação crônica.

Ao consumir mais gordura saudável, seu corpo e mente permanecem repletos de energia. Com isso, a necessidade de carboidratos diminui. Consumindo menos carboidrato seu corpo libera menos insulina. Menos insulina promove menos inflamação.

Portanto, meus amigos, se você quer prevenir doenças e não ter o mesmo destino de Álvaro, avalie o estado de inflamação crônica silenciosa presente no seu corpo (há diversos exames para isso), consuma menos carboidratos refinados, aumente o consumo de gorduras saudáveis, durma melhor, pare de fumar,  pratique atividade física, reduza seus níveis de estresse, faça o bem, seja feliz e agradecido com os outros e com a vida.

Dr. Mauricio Egydio é médico fisiologista e atua nas áreas de saúde, bem-estar e longevidade.

Contato: [email protected] / Consultório: 11 4719-1476

[1] Ateromas são placas, compostas especialmente de lipídeos e tecido fibroso, que se formam na parede dos vasos sanguíneos. Levam progressivamente a diminuição do diâmetro do vaso, podendo chegar a obstrução total do mesmo e, possivelmente, ocasionando isquemias teciduais.

[2] Atualização da Diretriz Brasileira de Dislepidemia e Prevenção da Aterosclerose. Sociedade Brasileira de Cardiologia. ISSN-0066-782X. Volume 109. No. 2, supl. 1, Agosto 2017.

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