A dor da despedida

Tom Coelho fala sobre como temos que nos acostumar com a despedida, seja no âmbito pessoal ou profissional

A dor da despedida

- Foto: reprodução / internet

Há alguns anos eu vivenciava um ritual. Quando a sexta-feira se aproximava, minha rotina mudava. Eu procurava arrumar a casa com mais cuidado, ir ao supermercado para pequenas compras supérfluas e consultava guias de programação infantil. Expectativa, alegria e até taquicardia. Era dia de apanhar meus filhos para passarem o final de semana comigo.

A companhia das crianças era renovadora. Nada comparável a ouvir o som macio de suas vozes pueris, compartilhar seus sorrisos e gargalhadas espontâneas, a contemplá-los na tranquilidade do adormecer.

Os sábados eram especiais. Despertávamos juntos após uma noite de descanso em que três dividem um mesmo colchão. As refeições eram feitas tardiamente. Jogávamos de futebol a videogame. Eles discutiam e, segundos depois, reconciliavam-se. Davam trabalho para comer – mas comiam. Invariavelmente, avançávamos pela madrugada adentro. Era um dia sem igual porque parecia que não teria fim.

Porém, a chegada do domingo prenunciava o fim desta felicidade. As horas passavam rápido. Quando percebíamos, restava-nos espaço apenas para o banho, arrumar as malas e pegar a estrada. Eles partiam deixando saudades e lembranças por todos os lados: brinquedos, peças de roupas e a presença no ar. A cama ficava grande; o coração, pequeno.

Na vida profissional passamos também por vivências diversas. Você muda de cargo, depois de departamento e, finalmente, de unidade. Ou então abre uma empresa, participa de outra, encerra uma atividade. A cada um destes processos, uma nova fase se inicia ante o término de outra. Ambientes que vêm e que vão. Pessoas que vão e que ficam.

Há partidas, separações e despedidas. Em algumas situações dizemos “até logo”, em outras, um resoluto “tchau”. Entretanto, somente o “adeus” carrega consigo um bálsamo de dor, pois é o único temperado com o aroma, doce ou amargo, do tempo.

A vida me tornou positivo e otimista. Aprendo por tentativa e acerto, e não por tentativa e erro. Vejo o copo meio cheio, e não meio vazio. Toda adversidade traz consigo lições e oportunidades. Contudo, ainda não aprendi a lidar adequadamente com a dor de certos tipos de separação, como o adeus de uma despedida quando a vontade é ficar. Leonardo da Vinci dizia: “Onde há muito sentimento, há muita dor”.

De todas as partidas, idas e vindas, encontros e desencontros, permeados pela razão ou pela emoção, pelo jogo do certo ou do errado, as maiores dores advêm dos momentos em que me distancio de mim mesmo, questionando meus propósitos, a trajetória em curso e os caminhos a trilhar. No entanto, os maiores prazeres também decorrem desta redescoberta, quase sempre simples, sutil e inesperada.

* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de nove livros. E-mail: [email protected]. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.

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