O segredo está na insulina

Confira a coluna desta semana do médico fisiologista Dr. Mauricio Egydio

O segredo está na insulina

- Foto: Divulgação

Pesquisando grandes livros sobre nutrição, obesidade[2] e fisiologia[3] pude me deparar com uma questão muito importante: não se discutem as verdadeiras causas das doenças.

É claro que temos toda uma descrição detalhada da fisiopatologia das doenças, bases genéticas, alterações de receptores extra e intracelulares, alterações nas comunicações celulares, respostas imuno-dependentes, respostas imuno-hormonais, alterações nas sinalizações hormonais, e um enorme mapa de detalhamentos bioquímicos, que são avanços inegáveis e fantásticos da ciência em compreender os “mecanismos das doenças”.

Mas, o que dizer das causas?

Pense que houve um assassinato. Alguém foi morto por uma bala perdida. E eu, como cientista, vou analisar todas as pistas necessárias para identificar o projétil, tipo e calibre, furo de entrada e saída do corpo, incidência e angulação do projétil, tipo de arma que o disparou, ano de fabricação e modelo. Ficarei horas e horas montando este quebra cabeça para chegar a uma conclusão óbvia: há uma vítima, há uma arma e há um projétil. Mas não sei nada sobre quem apertou o gatilho.

O mesmo acontece com a obesidade, a síndrome metabólica, o diabetes e um elenco enorme de doenças. Conhecemos, em detalhes de ficção científica, a fisiopatologia das doenças, ou seja, somos capazes de explicar os detalhes microscópicos de sua ocorrência dentro do corpo humano. Mas quando questionamos a causa, voltamos ao círculo vicioso do vítima-projétil-gatilho.

Nesse exato momento a cultura médica dominante está com os olhos voltados para os “mecanismos”, para a vítima, a arma e o projétil, e não consegue olhar as “causas” e se perguntar quem puxou o gatilho.

As doenças crônicas e degenerativas referidas acima são como armas em nossas mãos, podemos até possuir genes que predispõem a diabetes, câncer e diversas outras doenças, mas alguém tem que apertar o gatilho para que esta sinalização genética venha a se expressar. Quando você conhece estas causas, você não aperta os gatilhos, portanto, você evita doenças através da prevenção. Isso se chama epigenética.

No caso da obesidade, da síndrome metabólica, do diabetes e das doenças arteriais e do coração, a nutrição pode ser a causa da manutenção da saúde ou da manifestação da doença. A nutrição, ou seja, os macronutrientes que você escolhe comer diariamente, podem disparar ou silenciar esses gatilhos.

Esses fatores alimentares associados ao sedentarismo, a intoxicação com substâncias como álcool, tabagismo e drogas, ao uso excessivo de agrotóxicos, assim como, o estresse e a ansiedade, criam a fórmula mágica da doença.

Se você não quer ficar doente, ou deseja melhorar uma condição de doença já instalada, a primeira coisa que você deve fazer é mudar sua alimentação. E a segunda coisa é introduzir uma atividade física em sua vida. E, por último, mas não menos importante, mudar o seu ambiente mental.

Sobre nutrição devo salientar que a Pirâmide Alimentar da Organização Mundial da Saúde não vai te ajudar. Como falei no artigo anterior, a distribuição dos macronutrientes recomendada pela OMS é de 60-65% para os carboidratos, 20-25% para as proteínas e 10-15% para gorduras. Esta recomendação está baseada em dois paradigmas médico-nutricionais: a de que os carboidratos são uma fonte necessária e vital de energia para o corpo; e a de que as gorduras engordam e causam doenças do coração e das artérias.

Esses dois paradigmas elevaram o consumo de carboidratos no mundo e reduziram o consumo de gorduras. No entanto, posso lhe garantir que os carboidratos não são a única fonte vital de energia para o corpo, assim como, as gorduras naturais não causam doenças e nem engordam.

E vimos, paralelamente a isso, que a obesidade só vem crescendo no mundo, assim como o diabetes, a síndrome metabólica, as doenças do coração e das artérias, sendo responsáveis por 50% das mortes nos USA, apesar das recomendações dietéticas oficiais da OMS.

Não vamos esquecer também do meu artigo no JE, onde revelei em primeira mão o trabalho científico mais importante desta década, o estudo PURE da revista inglesa The Lancet[4], onde foi comprovado que as populações que consomem mais gordura vivem mais e tem menos doenças do coração.

O mais importante é que o estudo PURE revelou que quanto mais carboidrato consumimos na dieta, mais doenças ocorrem, mais doenças do coração ocorrem e mais mortes ocorrem.

Não se trata de definir a quantidade ideal de carboidratos, gorduras e proteínas na sua dieta. O corpo humano não tem botão liga-desliga. Trata-se de entender que quanto mais carboidratos ingerimos, pior será para o metabolismo humano. Enquanto que, quanto mais gorduras naturais ingerimos, melhor será para o metabolismo humano.

Agora fica simples entender que todo pão, massa, tapioca, pão de queijo, batata, arroz, cereais, todos ricos em amido e, ainda, doces, bolos, sorvetes, bebidas açucaradas, refrigerantes, frutas doces, que são todos ricos em açúcares, estão acionando gatilhos de diversas doenças dentro de você.

Em contrapartida, as gorduras naturais originárias das carnes, sementes oleaginosas como castanhas, chia e linhaça, frutas oleaginosas como coco e abacate, leite integral e seus derivados como manteiga e iogurte, assim como, todos os alimentos fontes de gorduras ômega 3, 7 e 9, são saudáveis, energéticas e protetoras da saúde. E NÃO ENGORDAM.

Em outras palavras, passe a consumir mais gordura natural e menos carboidrato na sua alimentação diária. Você sentirá grandes efeitos no seu corpo, na sua disposição diária e na sua atividade mental.

Faça uma redução gradual dos carboidratos e, ao mesmo tempo, introduza uma fonte de gordura natural em seu lugar. Faça substituição de carboidrato por gordura de forma lenta e gradual.

 

  1. Substitua pão com margarina, por omelete com 2 ovos inteiros com algum tipo de queijo gordo (curado por mais de 6 meses);
  2. Substitua pão de queijo ou tapioca, por creme de abacate com frutas vermelhas e kefir[5];
  3. Substitua café com leite desnatado adoçado com açúcar, por café com manteiga guee e leite de coco, adoçado com estévia ou xylitol natural.

           

Mas, afinal, porque os carboidratos têm esse efeito deletério em nosso corpo. A resposta está num hormônio chamado insulina.

A insulina é um hormônio secretado pelo pâncreas, nas células especializadas das Ilhotas de Langherans, e está associada a abundância de energia, ou seja, quando existe abundância de alimentos muito energéticos na dieta, em especial os carboidratos refinados à base de farinhas e açúcares, a secreção da insulina aumenta muito.

            A insulina desempenha papel fundamental no armazenamento da energia ingerida. Ela armazena a energia dos carboidratos na forma de glicogênio no fígado e nos músculos, a fim de suprir-lhes combustível necessário para suas funções e, o excedente desta energia ingerida na forma de carboidratos é convertido, sob o estímulo da insulina, em gordura e armazenado no tecido adiposo[6].

Em outras palavras, o carboidrato em excesso engorda. Vou repetir: farinhas e açúcares em excesso são transformados em gordura pela ação da insulina. Quanto mais carboidratos você ingere, o seu corpo sofre uma overdose de amidos e açúcares que irão se transformar em glicose. Quanto mais glicose na corrente sanguínea, mais o seu pâncreas é forçado a liberar insulina em quantidades cada vez maiores, para dar conta deste excedente energético.

Como você só come carboidrato, a agressão é permanente. Com isso, sua insulina mantém-se sempre alta. A partir de então, três coisas podem ocorrer em seu corpo, sozinhas ou em conjunto:

  1. Você irá engordar.
  2. Seu corpo ficará resistente à insulina, iniciando uma síndrome metabólica.
  3. Seu pâncreas entrará em falência progressiva, desenvolvendo diabetes.

Nos três casos você estará caminhando para Síndrome Metabólica, para o Diabetes e para as Doenças do Coração e da Artérias.

Com uma dieta rica em gordura natural e pobre em carboidratos isso não ocorre, porque a gordura ingerida não estimula a secreção de insulina.

A chave está na insulina. Controle sua insulina, e você controlará sua saúde e sua longevidade. E este controle não é feito com medicamentos. Ele é feito através de ajustes alimentares, ou seja, consuma menos carboidratos e mais gorduras.

Você deve dar férias ao seu pâncreas. Reduzindo a quantidade de carboidratos na alimentação e aumentando a quantidade de gorduras naturais, seu corpo e a sua mente estarão repletos de energia, vindas da metabolização das gorduras, e sua insulina estará baixa, devido ao baixo teor de carboidratos. Com isso você não irá engordar, ao contrário, emagrecerá.

Dê sobrevida ao seu pâncreas, reduzindo o consumo de carboidratos. Previna a ocorrência de doenças metabólicas. Além disso, você também estará evitando a ocorrência de uma inflamação crônica silenciosa, verdadeira causa das doenças metabólicas e cardiovasculares.

No próximo artigo falarei sobre a insulina e a inflamação crônica, assim como, seu impacto profundo nas doenças do coração e das artérias.

Dr. Mauricio Egydio é médico fisiologista e atua nas áreas de saúde, bem-estar e longevidade.

Contato: [email protected] / Consultório: 11 4719-1476

 

[1] Krause: Alimentos, nutrição e dietoterapia. RJ: Elsevier, 2012.

[2] Mancini, Marcio C. Tratado de obesidade. 2a. ed. RJ: Guanabara Koogan, 2017.

[3] Guyton e Hall, John E. Tratado de Fisiologia Médica, 12a. ed., RJ: Elsevier, 2011.

[4] The Lancet. August, 29, 2017. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continentes (PURE).

[5] Kefir é uma colônia de microrganismos simbióticos imersa em uma matriz composta de polissacarídeos e proteínas. Originário do Cáucaso, é formado por lactobacilos e leveduras aptos a fermentar diversos substratos, sendo o leite (caprino ou bovino) o mais comum deles (wikipedia.org).

[6] Guyton e Hall, John E. Tratado de Fisiologia Médica, 12a. ed., RJ: Elsevier, 2011 (p. 988)

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