Porque as gorduras são saudáveis

Dr. Mauricio Egydio continua sua explicação sobre os benefícios das gorduras

Porque as gorduras são saudáveis

Como vimos no artigo anterior, você aprendeu a ter medo de comer gordura, estando culturalmente (e erroneamente) relacionada a maiores índices de doença cardiovascular e obesidade. Por isso, é muito comum você estar acima do peso e cheio de gordurinhas localizadas, colesterol alto, usando alguma medicação para isso, fazendo dietas para emagrecer e, por causa disso, você está usando na sua dieta leite e iogurte desnatados, queijo branco, carne sem gordura, peito de frango sem pele, usando margarinas zero colesterol, evitando frituras, comprando tudo light, mas mesmo assim, o colesterol continua alto, as gordurinhas não vão embora e você continua se sentindo mau.

O pior de tudo é que, quando você quer “abusar” de alguma gordura, você foi ensinado a optar pela “margarina sem colesterol” e pelos óleos considerados “saudáveis” como soja, canola, girassol e milho.

Mas um paradoxo foi observado ao longo destas décadas. Apesar desta extrema restrição de gorduras na dieta, as pessoas continuam a engordar e a morrerem mais e mais do coração, doenças arteriais e diabetes.

Hoje já sabemos, como demonstrado no artigo científico da revista The Lancet[1] de agosto de 2017, que quanto mais gordura você consome, menos doenças do coração e morte ocorrem, e quanto mais carboidrato você consome, mais doença do coração e morte ocorrem.

Mas porque a gordura tem esse efeito protetor ao nosso corpo? Separei 4 razões principais:

1) A gordura é importante para o paladar, dando sabor e suavidade às preparações alimentares, equilibrando funções cerebrais que regulam a fome e a saciedade;

2) A gordura é importante na produção interna de diversos hormônios, chamados hormônios esteroides, cuja molécula matriz de produção é o colesterol, de onde saem a pregnenolona, o DHEA, a testosterona, o estrógeno, a progesterona, o cortisol, a aldosterona, a vitamina D e muitos outros hormônios, cada um com várias funções vitais para nossa sobrevivência;

3) A gordura é importante para a absorção de vitaminas lipossolúveis (lipo = lipídio = gordura), como as vitaminas A, D, E e K, cada uma com suas funções vitais em nosso organismo. Sem gordura, não temos a biodisponibilidade correta destas vitaminas no corpo e, com isso, o corpo padece com diversas doenças;

4) A gordura é importante para a formação, manutenção e reparo de todas as paredes celulares de nosso corpo, da unha ao cérebro. Nós somos formados em grande parte (grande parte mesmo) por gordura.

O que temos que diferenciar aqui são os tipos e os subtipos de gorduras para saber quais são as essenciais, as boas e favoráveis à saúde, e quais são as ruins para a saúde e que devem ser realmente evitadas.

A primeira diferenciação que você deve fazer é entre gorduras naturais e gorduras artificiais.

As gorduras boas à saúde são as gorduras naturais, provenientes da natureza, presentes em castanhas (pará, caju, etc), frutas (abacate), sementes (chia, linhaça), carnes de todos os tipos (gados, aves, peixes, frutos do mar) e produtos de origem animal (ovos, queijo, etc).

As gorduras péssimas à saúde e mortais são aquelas usadas em produtos industrializados, usadas para dar textura ou conservação, como bolachas, salgadinhos, sorvetes, congelados, margarinas (qualquer tipo, marca ou promessa), ou seja, aquelas onde se tem a presença de gordura hidrogenada, gordura trans e gordura vegetal[2], facilmente detectadas nos rótulos do produto, quando você aprende a lê-los.

A segunda diferenciação muito importante a ser feita, é entre as gorduras que são fonte de ômega 3 e as gorduras que são fonte de ômega 6.

As gorduras fontes de ômega 3 são anti-inflamatórias, produzem energia para o corpo e produzem estruturas fortes e resistentes a invasores externos e interno[3] ao nosso organismo. Já as gorduras fontes de ômega 6 são inflamatórias, oxidantes da parede vascular, tendem a ser guardadas nos adipócitos (favorecem a obesidade junto com os carboidratos) e formam paredes celulares mais fracas e sujeitas a degradação por invasores externos e internos.

As gorduras saturadas da carne, da manteiga e do óleo de coco, por exemplo, são ricas em ômega 3, assim como as gorduras do azeite extra virgem e da banha de porco, capazes de aumentar o HDL colesterol que é protetor do sistema cardiovascular.

Já as gorduras na forma de óleos como girassol, soja, canola e milho são extremamente ricos em ômega 6, causando um desequilíbrio fatal para o seu organismo.

A proporção entre ômega 3 e ômega 6 dentro do nosso corpo deveria ficar na razão de 1:1. No entanto, hoje em dia esta proporção está entre 1:25 e até 1:50.

Por isso, é fundamental aumentar o consumo de gorduras fontes de ômega 3, como carnes, manteiga, banha de porco, óleo de coco, azeites, e também suplementar ômega 3 em forma de cápsulas de boa qualidade (o barato sai caro) e, ao mesmo tempo, reduzir ao máximo o consumo de ômega 6, como óleos vegetais, margarinas e alimentos fontes de gorduras trans[4].

Espero que você possa ter aprendido um pouco mais sobre gorduras, para fazer escolhas conscientes para você e sua família, sem medo de consumi-las, pois você pode estar agregando saúde ou doença na sua alimentação diária, conforme aquilo que leva para dentro da sua casa.

Enfim, não tenha medo das gorduras naturais, fuja sim das gorduras industrializadas, coma mais alimentos naturais do que artificiais, descasque mais e desempacote menos.

Em resumo, as gorduras que desinflamam e devem ser consumidas diariamente são: óleo de coco, azeite de oliva extra virgem, castanhas variadas, sementes de chia e linhaça, abacate, manteiga, queijos gordurosos, aves com ou sem pele (preferência ao caipira ou orgânico), carne de gado e porco magra ou gordurosa (preferência ao gado de pasto), ovos inteiros (2 a 4 ovos ao dia), iogurte natural e, ainda, não esquecer de suplementar sempre ômega 3 e vitamina D.

Até nosso próximo encontro.

Dr. Mauricio Egydio é médico fisiologista.

Atua nas áreas de Saúde, Bem Estar e Longevidade.

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[1] The Lancet. Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents: a prospective cohort study. August, 2017.

[2] As gorduras hidrogenadas e trans foram proibidas nos USA. A indústria têm um prazo de alguns anos para adptar seu mercado produtivo sem o uso deste tipo de gordura para conservação e preparação dos alimentos industrializados. No Brasil, nada se fala sobre o assunto.

[3] Invasores externos = bactérias, fungos e virus; invasores internos = reações de autoimunidade, alergias, ataque feito pelo nosso próprio sistema imune.

[4] Gorduras trans = gordura de origem artificial, corretamente relacionada com o depósito de gordura abdominal, aumento do LDL colesterol (ruim), piora do perfil insulínico, desenvolvendo resistência a insulina e diabetes. Enfim, um verdadeiro veneno e aparece nos rótulos como gordura vegetal, gordura esterificada ou gordura trans. Normalmente elas vem associadas a corboidratos (sorvetes, biscoitos, bolachas, salgadinhos, etc)

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