Não tenha medo de gordura

Em sua coluna desta semana o Dr. Maurício Egydio fala sobre o consumo de proteínas e gorduras

Nos últimos cinquenta anos você aprendeu que uma boa alimentação, a chamada “balanceada”, deve conter 50 a 60% de carboidratos, 20 a 30% de proteínas e 10 a 15% de gorduras. Você aprendeu também que quanto menos gordura é melhor, ou seja, sempre te falaram que existe uma associação direta entre gordura e obesidade, gordura e doenças do coração, gordura e derrame, gordura e entupimento das artérias.

Este conceito deu origem a chamada Pirâmide Alimentar, hoje mundialmente adotada em diversos países (Figura abaixo).

Mas o que você talvez não saiba é que, nos mesmos últimos 50 anos, os níveis de obesidade têm se elevado continuamente no mundo todo, já representando 50% da população brasileira e 75% da população americana nesta década. Isso mesmo, estamos todos acima do peso.

O que você também não sabe é que 25% das mortes nos Estados Unidos é causada por Infarto do coração e outros 25% é causada por doença cardio-metabólica, incluindo o diabetes. Ou seja, metade dos americanos morrem de doenças do coração, dos vasos e do metabolismo, apesar de adotarem a Pirâmide Alimentar dita “balanceada” e consumirem toneladas de remédios para baixar o colesterol (gordura). O Brasil segue o mesmo caminho. Caminho para o abismo!

Nestes mesmos 50 anos, alguns médicos e nutricionistas da contra-corrente, permaneceram fiéis à lógica do metabolismo humano, entendendo e respeitando a fisiologia, recomendando a manutenção do consumo de gorduras na dieta e redução dos carboidratos, assim como, uma forte resistência à “historinha de que o colesterol é a causa das doenças cardiovasculares e mata”.

Esses profissionais da área de saúde foram massacrados nos meios científicos e na mídia, tidos como loucos e charlatães. Mas, como todo mundo que carrega aquela certeza no coração como se fosse uma missão,eles não desistiram de seus conceitos, e lentamente, temos hoje diversos grupos que orientam seus pacientes de forma contrária à Pirâmide Alimentar.

Em outras palavras, é recomendado o consumo alto de gorduras e proteínas, do tipo 30 a 40% para cada, e consumo mínimo de carboidratos, do tipo 20 até 30%, no máximo. Isto em termos de quantidade, fora os detalhes da qualidade, índice glicêmico, etc.

Mas, afinal, quem está certo? As recomendações da Pirâmide Alimentar da OMS – Organização Mundial da Saúde (veja o peso da coisa), ou um bando de malucos espalhados pelo mundo?

Acreditem se quiser, os malucos estão dez passos à frente. Principalmente após a publicação de um artigo científico, daqueles que mudam o mundo, neste mês de agosto (doutor está atualizado, hein?), que revela conclusões incontestáveis sobre o assunto.

O artigo foi publicado na revista TheLancet, que é uma revista científica sobre medicina, de publicação semanal, sendo uma das mais antigas, respeitadas e reconhecidas revistas do meio científico, ainda descrita como uma das mais prestigiadas. É publicada no Reino Unido desde 1823.

Trata-se de um estudo prospectivo, aquele que você acompanha as pessoas durante anos. Multicêntrico, que neste caso envolveu 18 países e 5 continentes. Com um N estatístico enorme, sendo observado mais de 130.000 pessoas.  E de longa duração, pois as pessoas foram acompanhadas por mais de 10 anos (de 2003 a 2013).

Com isso, conclusões transformadoras puderam ser observadas, sem contestação. Vamos a elas (Gráfico 1):

1) A ingestão de carboidratos dentro do recomendado (50-60% do valor energético) está associada a MAIOR risco de mortalidade total;

2) As gorduras e seus subtipos estão relacionados a MENOR mortalidade total;

3) As gorduras não foram associadas a doenças cardiovasculares, infarto do miocárdio ou mortalidade por doença cardiovascular (coitado do colesterol, recebeu a pena de prisão perpétua só por que estava na cena do crime);

4) As gorduras saturadas apresentaram associação inversa, ou seja, são PROTETORAS do sistema cardiovascular (Uau!!! Fantástico!!!)

Leia esse trecho conclusivo do artigo: “High carbohydrateintakewasassociatedwithhigherriskot total mortality, whereas total fatand individual typesoffatwererelatedtolower total mortality. Total fatandtypesoffatwerenotassociatedwith cardiovascular disease, myocardialinfarction, or cardiovascular diseasemortality, whereassaturatedfathadaninverseassociationwithstroke. Global dietaryguidlinesshouldbereconsidered in light ofthesefindings.

Traduzindo: “A ingestão elevada de carboidratos foi associada a um maior risco total de mortes, enquanto que as gorduras e seus subtipos foram relacionados com menor mortalidade total. As gorduras e seus subtipos não foram associadas com doença cardiovascular, infarto do miocárdio, ou mortalidade por doença cardiovascular, enquanto que a gordura saturada ainda apresentou associação inversa com ataque cardíaco. As recomendações mundiais (globais) sobre dieta devem ser reconsideradas à luz destes achados”.

Pois é, minha amiga e meu amigo, você que está aí comendo margarina sem colesterol, frango sem pele, carne sem gordura, leite desnatado, queijo branco, suco de fruta, pão integral, bolacha fitness e tudo sem gordura, além de estar tomando algum remédio para baixar colesterol, deve urgentemente rever estes conceitos e estas orientações.

Estou aqui compondo a turma dos malucos, agora validado pelo The Lancet, para afirmar a você:

1)A ingesta de gorduras, principalmente as saturadas e os triglicérides de cadeia média, não expõem você ao risco cardiometabólico ou doenças do coração;

2)Não tenha medo de gordura;

3)Gordura NÃO engorda;

4)Carboidratos, principalmente os refinados, estão no mínimo te engordando, aumentando seus problemas de coração, pressão alta e diabetes, ou seja, estão te matando lentamente;

No próximo artigo, irei explicar em detalhes o que são carboidratos, gorduras e proteínas, quais são os melhores, os piores, os essenciais e os proibidos.

Suplemente bem e com inteligência.

Abraços Fraternos.

Dr. Maurício Egydio  é médico fisiologista e ortopedista, atuando nas áreas de saúde, bem estar e longevidade

Contato: [email protected]

Mancini, Márcio C. (et all) -  Tratado de Obesidade. RJ: Guanabara Koogan, 2017.

Associationsoffatsandcarbohydrateintakewith cardiovascular diseaseandmortality in 18 countries fromfive continentes (PURE): a prospectivecohortstudy. The Lancet, August, 29, 2017.

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