Caminho do Sol (2ª parte): Jesus estava no caminho

Caminho do Sol (2ª parte): Jesus estava no caminho

- Foto: Divulgação

              Amanhece e começa o nosso segundo dia em busca da nossa conquista. Apesar, do cansaço, senti a equipe mais confiante. Oro animado parece que teve na insônia da noite anterior a paz que procurou. Como pode uma noite ser a solução dos seus problemas? Dar tempo à vida pode ser uma grande lição a ser aprendida. Manter a calma nos momentos de dúvidas e dificuldades pode de forma simples mudar o destino, sem grandes embates ou tormentas. O sofrimento do dia anterior deixou a equipe mais forte. O sofrimento te deixa mais forte!

              Seguimos nosso caminho, entre canaviais e terra roxa, chegamos numa pequena cidade com pouco mais de cinco mil habitantes. Deserta, nos chama a atenção, a calma daquele lugar e das pessoas. A vida no interior tem dessas peculiaridades. Todos temos nossas características, conhecer nosso interior, nosso tempo, nossos desejos, fraquezas e necessidades nos faz levar um vida melhor, e quem sabe ser mais feliz. Um almoço simples, um breve cochilo, um grande badalo do sino e voltamos a lida. Precisamos de pausas. Precisamos de simplicidade.

              O caminho ainda é duro e longo, quase uma rotina de subidas e descidas, marrom, verde e azul nos cercando o tempo todo. Não percebemos, mas o caminho anda e o tempo passa. E justamente, por se desligar, numa dessas encruzilhadas, apenas Rafael viu a seta que nos guiava. Temos medo de nos perder naquele labirinto. Seguimos em frente, na certeza do quê o companheiro tinha visto. Como é a vida, a cegueira de quatro pessoas passa a ser a certeza diante do olhar de um, confiamos e vamos em frente. Mas quem não tem plena certeza é o único com o olhar naquele momento. Rimos e seguimos. Quantas vezes não duvidamos de nós? Deixamos de acreditar no nosso potencial apenas pelo fato de outras pessoas não enxergar o quê apenas nós vemos, apenas nós acreditamos?

              O sucesso não é feito apenas de sol e bom terreno. O tempo muda. O céu escurece. Raios ao longe. Estrondos próximos. A água começa a cair torrencialmente naquele campo sem proteção. Somos alvos fáceis. Como diz, um amigo: numa cirurgia, olhe para o médico e terá uma dimensão da situação. Aldrigo é engenheiro elétrico, se ele estava preocupado, deveríamos nos preocupar. O caminho ensina. Você é pequeno diante da natureza, não lute, aceite.  Uma igreja totalmente abandonada, em meio a cana e mato, parece surgir do nada. Nos recebe de braços abertos e nos protege.  Os rostos assustados novamente dão sorrisos.  A fé tem sido minha aliada, em todas as jornadas e minha religiosidade tem aumentado com o passar da idade. A chuva acalma, agradeço em silêncio e seguimos nosso caminho.

              As estradas são de terra e judiadas pela falta de conservação ou pouco uso. Agora é barro e mais barro, o pedal fica técnico, perigoso e divertido para cinco “moleques crescidos”. Ao final do dia, novamente aqueles rostos cansados e desfalecidos surgem. Agora com corpos e bikes elameados, onde cada metro tem um pouco mais de dor. Temos que chegar à próxima pousada antes de anoitecer, pois naquelas condições não parece ser uma boa idéia perder o conforto da luz. Também não estávamos certos de que seriamos recebidos porque não conseguíamos confirmar nossa reserva, diante da falta de comunicação com nossos anfitriões. Gerson e Aldrigo, os dois engenheiros acostumados com os cálculos seguem na frente, puxando o ritmo. Percebo todos apreensivos, mas pedalar forte parece ser uma boa alternativa para o momento, e nem pensar no quê poderia dar errado.

              Numa longa subida, vejo nossos primeiros companheiros parados conversando com um senhor de meia idade, no meio do nada, ao lado de um carro popular. Imaginávamos que o carro estivesse ali atolado sem condições de prosseguir viagem. A próxima seta indicava que deveríamos virar a esquerda. Aproximamos… e para a surpresa era o Senhor Jesus, dono da pousada na qual pernoitaríamos. Veio ao nosso encontro alertar que o caminho estava todo alagado com queda de uma ponte e que deveríamos tomar outro rumo. E como ainda encontramos pessoas de palavra. Apesar de não saber se viríamos, aquele senhor saiu do seu conforto, pegou a chuva e lama para encontrar cinco estranhos e colocá-los no caminho. Ainda preciso acreditar no Ser Humano. (O nome daquele senhor, fica por conta da religiosidade de cada um!). Pegamos uma estrada mais longa, porém tranqüila. As vezes, apesar dos nossos planos, temos que mudar a direção para atingir nosso objetivo. Pessoas são colocadas em nossas vidas com esta missão.

              Hoje foi um dia de grande espiritualidade. Ter fé não te dará nada, mas te fará mais forte para conquistar. Não te mostrará nada, mas dará mais visão para enxergar. Ter fé não é esperar acontecer. Te fé é ir além das tuas forças e pedir com o coração o quê a razão não pode te dar. Chegamos novamente em segurança ao nosso destino, recepcionados por toda uma família com um delicioso suco de frutas colhidas no pé. Roupas estendidas, bicicletas revisadas, um jantar caseiro e a noite será longa, pois todos dormiram cedo. Assisto meus companheiros dormir. Como são fortes estes guerreiros!

 

Djalma Nogueira

No meio do caminho

 

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