Um Natal inesquecível

Um Natal inesquecível

- Foto: Reprodução/Internet

Alguns fatos que ocorrem em nossas vidas ficam marcados para todo o sempre. Influenciam nossas atitudes ao estabelecerem a visão que teremos do mundo.

Meu avô Olavo, pai da minha mãe, foi uma dessas pessoas que ficam tatuadas em nossas almas. Era do tipo de gente que puxa para fora o que temos de melhor fazendo-nos brilhar por deixar fluir quem somos. Desde pequena estimulou minha imaginação, curiosidade, busca pelo conhecimento. Provocou minha paixão por diversos temas incomuns a uma menina adequada aos padrões da época.

 

Um homem além do seu tempo. Quando viajava marcava dia e hora para tentarmos nos comunicar por telepatia. Juntos, olhávamos o céu buscando ver um disco voador. Política, justiça, religiosidade, eram alguns dos temas que sempre nos rondavam. Com ele me sentia viva fazendo o de que mais gostava - descobrir.

Hoje relembro e partilho com vocês um fragmento da nossa convivência. Aos 11 anos ganhei dele um livro “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. O livro me arrebatou já nas primeiras páginas desencadeando milhares de sentimentos. Do riso ao choro compulsivo eu pulava a cada página virada.

Para quem não leu, passo aqui uma ideia superficial do seu conteúdo - retrata a vida de um menino de cinco anos, pertencente a uma família numerosa e pobre, que encontra na imaginação e amizade refúgios para a sua solidão e desgostos.

 

Passados quarenta e cinco anos da leitura relembro-me, como hoje fosse, da dor no meu coração e das lágrimas que derramei quando o menino Zezé relata, que pela miséria vivida por sua família, não receberia nenhum presente de Natal. Até então, como criança de onze anos, tinha eu como realidade dessa celebração, a fartura, os presentes, os enfeites, a família reunida. Com o livro descobri existir outra realidade diferente da vivenciada por mim. Choque.

A alegria que naquela data me inundava, após a descoberta do outro lado da vida, transformou-se em melancolia que infelizmente acompanha-me, desde então, na chegada de dezembro.

Quando vejo a excitação de alguns com as festas, troca de presentes, reencontros e de outros com a dissimulação de suas tristezas pela alegria forçada que se impõe como o esperado, recordo-me dos esquecidos.

 

Esse ano de 2015, bem sei, será diferente: ao meu comum desconsolo se aliará a revolta. Embaixo da árvore de Natal somente as dívidas estimuladas por quem se fantasiava de “Papai Noel”.

O povo brasileiro descobriu que Papai Noel não existe - o encantamento se extinguiu. O mundo real surgiu revelando a farsa - o pretenso pai dos pobres e sua grande família carmim deram-nos um desfalque. Aos esquecidos de sempre, juntam-se nesse Natal, novos sem empregos, falidos, endividados...

E o barbudo de vermelho com o seu saco cheio da nossa grana aguarda o sino tocar para em suas renas se mandar enquanto um legado nos deixa anos de recessão pela frente.

Amadurecidos a força cabe-nos daqui para frente escolher com sabedoria quem realmente representará nossos anseios.

 

 

 

Foto

Regina Helene de Oliveira O'Reilly

ver mais
Publicidade:

mais de Regina Helene de Oliveira O'Reilly

Comentários:

1