Nosso papo de hoje é...

Nosso papo de hoje é...

- Foto: Reprodução / Internet

 “Nosso papo de hoje é sobre depressão” com esta frase, o jornalista Ricardo Boechat iniciou seu programa no dia 27 de agosto na rádio Bandnews, após 15 dias de afastamento do rádio e da televisão. Corajosamente, ao retornar à ativa, compartilhou com seus ouvintes a razão que o retirou de cena por uma quinzena: um surto de pânico devido ao seu estado depressivo, até então, talvez, não percebido.

Independentemente dos acontecimentos rotineiros, da classe social a que pertencemos, das dificuldades e facilidades que vivenciamos em nossas existências, da formação cultural que alcançamos, da lucidez que possuímos, podemos ser acometidos por ela. Boechat foi apenas um caso que veio à público diante do crescente índice que a doença atinge atualmente. E, diferentemente da grande maioria acometida por essa doença, ele a expôs abandonando o preconceito que os próprios “em depressão” experimentam em relação a ela, bem como, o receio do preconceito do outro.

A constatação de que não se tem controle sobre um estado psíquico não compatível, muitas vezes, com a realidade vivida pelo doente - sua vida externa ao seu olhar e ao olhar do outro não lhe dá motivos concretos para tanto sofrimento - gera-lhe culpas pelas cobranças dos que estão a sua volta: “Você tem tudo, é um pecado sentir-se assim”. Culpas também são sentidas pela constatação de que você está gerando dor a quem te ama. A incompreensão sobre o problema dos que nunca passaram por essa enfermidade e as suas seqüentes atitudes contrapõem-se ao objetivo de melhora, reforçando a confusão emocional, a baixa estima e a sensação de fragilidade dela derivadas. Surge assim, nesse contexto, a autodefesa do doente pelo silêncio. O não compartilhamento da situação com quem não tem o alcance para entendê-la se faz opção para a exclusão de interpretações inexatas e para sua proteção. Em desequilíbrio, o nosso corpo emite sutis sinais para que reajamos. Ao não os levarmos a sério ou os ignorarmos, eles se impõem de forma enfática. E, revelando com intensidade a desarmonia psíquica a que estamos submetidos, força-nos a buscar meios para a restauração do equilíbrio perdido. A depressão, diferentemente do que a maioria imagina, não se fundamenta em fatos negativos ocorridos momentaneamente em nossas vidas. A tristeza ou melancolia, geradas pela perda, frustração, acontecimentos que nos tiram da zona de conforto, são respostas saudáveis, esperadas de todos nós humanos perante situações adversas. O “prolongamento” dessas saudáveis respostas, além do tempo comum, aí sim, torna-as inadequadas, transformando o saudável em prejudicial. Os sentimentos negativos prolongados, a que chamo de sugadores da energia vital, abalam o funcionamento cerebral ocasionando disfunções psíquicas e constituindo-se em uma das causas da depressão.

 Trauma continuado, desacordo entre o querer e o fazer, doenças físicas, senilidade, stress, predisposição genética, etc., são algumas das outras causas que afetam diretamente a operacionalidade de nosso cérebro, originando- a. Trata-se, portanto, de desequilíbrio bioquímico impulsionado por diversas causas - um curto circuito nos neurotransmissores que, em pane, deixam de realizar satisfatoriamente suas funções. Esse transtorno afetivo produzido pela diminuição em nossos cérebros da serotonina e endorfina, responsáveis pela sensação de conforto, prazer e bem estar esvazia-nos. O emocional fica desregulado. O sentimento de vazio prepondera. A vida não tem sentido. Nada mais nos interessa. As rotinas tornam-se insuportáveis. O choro sai sem razão. Não se tem mais objetivos. O relacionar-se é pesadíssimo. O corpo fica sem energia. O dormir é uma dificuldade. O despertar, um castigo pelo inferno antecipado do dia porvir... Mas um dia qualquer, após sermos medicados por semanas com antidepressivos e sem esperarmos, despertamos do pesadelo. A escuridão se esvai, o sol renasce, a vida retoma significado, os sonhos retornam coloridos, a lua sensibiliza, a música faz dançar, o choro cessa e o sorriso impera... Boechat, eu “estou” bem. Você ficará bem. E saiba - não estamos sós. Estamos dentre os 30% dos seres humanos. Mas o crescimento desmedido dessa doença me faz refletir: será que não estaríamos perdendo o elo com a nossa essência individual ao nos sujeitarmos aos valores padronizados propagados pela sociedade contemporânea? Será que a perdida conexão com a natureza clama reconectar-se? Será...? Será...? Decifrar a mensagem codificada em doença é conscientizar-se do que nos faz mal. E consciência é libertação.

Foto

Regina Helene de Oliveira O'Reilly

ver mais
Publicidade:

mais de Regina Helene de Oliveira O'Reilly

Comentários:

1