O povo se conscientizou?

O povo se conscientizou?

Ouço muitas pessoas afirmando que o povo brasileiro está conscientizando-se de que, somente exercendo sua cidadania, pode-se extinguir o que não se quer mais para si e para o país.

A nossa percepção quanto a estar atualmente ocorrendo uma conscientização política do povo brasileiro baseou-se nas, por nós testemunhadas, expressões de repúdio quanto à situação de corrupção aqui estabelecida, bem como, aos responsabilizados pelo seu estabelecimento. Os panelaços, manifestações de ruas e baixíssimas aprovações de Dilma, PT e aliados cristalizaram a idéia de que o povo está despertando do sono profundo da alienação. E de que, a partir de agora, não mais será manipulado por populistas, corruptos, travestidos de idealistas.

Políticos amados ou mesmo divinizados, até pouco tempo atrás, por grande parcela da população, hoje, são rejeitados e demonizados por essa mesma parcela, quase em unanimidade. Da paixão ao ódio, nossa gente saltou em meses. Em novembro de 2014 as urnas confirmaram a predileção do povo pela candidata da situação, pertencente ao partido que desde 2002 exerce o poder político - PT.

Três meses após ser empossada Presidente do Brasil, 15 de março de 2015, uma massa verde amarela tomou as ruas de diversas cidades do país clamando – “Fora Dilma”, “Punição para os corruptos”, etc. Esses fatos, para muitos de nós, seriam suficientes para embasarem a resposta à pergunta inicial que motivou essa reflexão. Mas, para que possamos respondê-la devidamente, teremos que ir além do aparente, conceituando prioritariamente – “conscientização”.

Conscientizar-se significa alcançar, por um processo de observação e correta interpretação dos estímulos e acontecimentos que nos rodeiam, ampla compreensão sobre o contexto em que estamos inseridos e sobre o papel que temos nesse contexto orientando nossas atitudes pelos valores depreendidos. Para tanto, devemos anular condicionamentos, gostos, vínculos emocionais, idéias pré formatadas, interesses pessoais, ou seja, todas as barreiras que inibam uma límpida visão sobre o todo.

Perante esse significado, repito a pergunta: o povo brasileiro se conscientizou?

Voltemos no tempo: em 2004, estourou o escândalo do bingo; em 2005, o mensalão; em 2006, quarenta indivíduos são denunciados (petistas, aliados, empresários); em 2007, o STF inicia o julgamento; em 2011, o PT retorna ao poder fazendo Dilma Rousseff presidente do Brasil.

A corrupção do PT há muito já era de conhecimento de toda gente brasileira e poucos, naquela época, mostravam indignação. Tanto é que Dilma se elegeu e Lula continuava celebrado, mesmo com o escândalo, como o salvador da pátria.

Lembro-me que em 2010, nós os indignados, saímos às ruas de São Paulo. Éramos míseros 63. O que mudou de lá para cá que motivou a queda do império petista? O povo teve o “estalo de Vieira” tendo ampliado sua percepção sobre a nossa realidade? O desencadeamento da Lava Jato limpou a neblina que ofuscava a visão do povo? Dilma seguiu na contramão do caminho que nos mostrou sendo seu? Nada disso, minha gente.

O mundo gira em torno do dinheiro - da Economia. O dinheiro possibilita bem estar, dignidade, prazer, consumo, status, poder, etc. Essa é uma verdade. A outra é que o ser humano, em geral, tem uma visão egoística - pensa só em si. Estando bem para ele, mesmo o caminho estando errado, danem-se todos os outros. O brasileiro, infelizmente, tem mais exacerbado esse sentimento. Não pela sua essência, mas pela falta de educação moral e cívica, dos exemplos, dos valores invertidos que aqui se instalaram desde o princípio.

Triste dizer que a corrupção passaria batida não fosse a recessão econômica a que nos submeteram. Agora digno-me a responder a questão chave: o povo não se conscientizou - tiraram-lhe o pão . Tiraram-lhe, principalmente, das classes menos privilegiadas, a ilusão de melhoria de vida.

Conscientes, sim, posso afirmar, são alguns poucos que estão revirando do avesso esse país ao quebrarem o seu “establishment”. As arrogantes, em geral, elites econômica e política, desceram do trono que lhes assegurava a impunidade, expulsos de sua zona de conforto.

A minha esperança é que, talvez, o processo iniciado por esses “alguns conscientes” transformem, indiretamente, a filosofia a que nos condicionamos - do “ter” a qualquer custo pelo “ser” a qualquer custo. Plantando a compreensão de que “sendo”, consequentemente, “teremos”. E de que o “ter” sólido de uma nação só pode ser gerado, prioritariamente, por ações conscientes do povo - iniciando pelo seu voto consciente.

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Regina Helene de Oliveira O'Reilly

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